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segunda-feira, fevereiro 05, 2007

A Sucessora... Nova Paixão?

Já se consta por toda a cidade do Porto que esta é a
nova paixão de um certo senhor!

Espero que seja ainda "melhor" do que a sua antecessora!
Vejam toda a notícia aqui.

terça-feira, janeiro 30, 2007

Livro Golpe de Estádio

Já tentei colocar aqui no blog algumas ideias que aparecem escritas ao longo dos vários capítulos do livro Golpe de Estádio de Marinho Neves, mas torna-se muito moroso e ocupa muito espaço no blog.
Por isso proponho que os interessados em ler tais assuntos, me coloquem o seu e-mail na caixa de comentários, que eu então farei o favor de vos enviar um documento em PDF.

Obrigado amigos Leões e a todos os que lutam contra o sistema.

Diziam que era Senil? Gágá? Tremeliquento?

Diziam que o nosso ex Presidente estava Senil, Gágá e Tremeliquento!
Fizeram dele um palhaço e tentaram passar uma imagem de ridículo; mas afinal parece que tinha muita razão em muitas coisas que dizia!
Leiam as notícias aqui:

http://bola-na-trave.blogspot.com/2007/01/ento-estava-senil-no-estava.html

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Os orgasmos simulados

Com total sinceridade gostaria de deixar aqui a minha palavra de solidariedade para com todos os meus amigos que são adeptos do FCP, por este momento muito difícil que estão a atravessar; pois deve ser muito difícil engolir certas verdades, que são cada vez mais uma evidência…Se eu tivesse o AZAR de ser adepto do FCP, sinceramente não sei como me sentiria. No mínimo já teria deixado de ligar ao futebol; pois no fundo no fundo será que os Portistas acreditam na justiça e na limpeza da colecção de títulos que amealharam?
É como se um indivíduo que está casado durante 30 anos com uma mulher que muito ama e a quem se dedica de corpo e alma, descobrisse que todos os orgasmos que a esposa teve na vida, e que tanto prazer, reconforto e realização pessoal lhe deram, foram todos simulados!

Ver Post completo em: http://bola-na-trave.blogspot.com/2006/12/os-orgasmos-simulados.html

segunda-feira, dezembro 11, 2006

Sporting deve mandar reabrir inquérito

José Mourinho e a Camisola Rasgada:
Nunca tive dúvidas, e aparece agora a Carolina Bailarina a confirmar mais uma vez esta história nojenta, de onde Mourinho só sai mais denegrido. Este Senhor deve desculpas públicas ao Sporting Clube de Portugal, que deverá solicitar de imediato a abertura de um inquérito, mas desta vez a valer e não manipulado como foi o da altura!
Por melhor treinador que Mourinho seja, não é um homem de honra, pois o acto de rasgar a camisola e de mentir com todos os dentes é indigno; ainda para mais quando este Senhor já defendeu (supostamente) as cores dos Leões quando foi empregado do clube como tradutor de Bobby Robson.
O Rui Jorge, revela esse sim, ser um Homem com "H" grande; e não um mito que se criou sobre uma base de Lama e sujidade!

terça-feira, novembro 21, 2006

Golpe de Estádio #09: Capítulo VI (Aventura no México)

O «Jumbo» da «Lufthansa» voava a uma velocidade de cruzeiro próxima dos 900km/h e tinha vento pela popa. Lá em baixo, a extensa pradaria do Texas anunciava já o final da viagem, algures no México, numa cidade chamada Saltillo, que seria onde a selecção iria estagiar durante três semanas para os jogos da fase final do Campeonato do Mundo.
Espreitando pela escotilha da cauda, enquanto mexia com os dedos os cubos de gelo do copo de whisky, Joaquim Oliveira sonhava com uma nova vida. Para trás queria que ficassem os meses de muito trabalho, convencendo os patrões do futebol de que seria lucrativo explorar a publicidade estática dos estádios. Tanto labutou que conseguiu convencer alguns, bem como os responsáveis pela selecção nacional.
Aliás, este até foi o seu trabalho mais fácil, pois na Federação mandavam todos e não mandava ninguém. O presidente (Silva Resende) até era uma figura com vocação eclesiástica.
No jacto, os jogadores partiam para mais uma rodada de «sueca» e o seleccionador(Torres) tentava dormir um pouco. Os jornalistas aproveitavam para pôr as leituras em dia, e meia dúzia de viajantes tentava perceber o que se passava, de facto, no interior do avião. Simplificando as coisas, era apenas mais uma equipa de futebol em viagem pelo mundo. Esta tinha a singularidade de ser a equipa portuguesa. Apenas mais uma equipa.
A chegada a Saltillo, após uma escala na capital mexicana, foi de arrepiar. Naquele mundo novo de comancheros, um exército esperava a equipa. Homens de metralhadora vigiavam o hotel da selecção, colocados em posições estratégicas, bem no centro de um inóspito planalto.
- Vai ser pior que Alcatraz!- vaticinou o «capitão» de equipa(Bento), que ainda estava longe de pensar o quanto estava iludido.
O hotel chamava-se «La Torre» e constava de uma grande torre onde se alojava a recepção e o restaurante, rodeada por duas filas de apartamentos ao estilo duplex, que foi onde ficaram os nossos jogadores e os jornalistas, cada grupo no seu bloco. O dono do hotel era um mexicano branco e gordo, que desde logo apresentou a sua ainda mais anafada esposa, ainda jovem, portanto, «com hipóteses de ser comestível lá para o fim da segunda semana», como logo alguém referiu.
Faltavam mais de três semanas para o início da competição. Havia que iniciar a adaptação à altitude das cidades onde os jogos iam decorrer. No fim da pradaria, junto à encosta de um monte, um complexo desportivo novinho em folha estava à disposição da equipa portuguesa. O relvado é que deixava um pouco a desejar. Enrolado num sarape, em pose para o único repórter-fotográfico da comitiva, o seleccionador mais parecia um guardador de rebanhos da pradaria do Norte do México, não fosse andar por ali um tal de Joaquim Oliveira a comandar um grupo de trabalhadores locais. De martelo em punho, ele dava o exemplo, pregando os primeiros painéis à volta do campo de treinos e berrando constantemente com os seus contratados, todos eles muito próximo da indigência.
- Foda-se para os Mexicanos. Parecem alentejanos!
Os dias passaram depressa, primeiro. Havia que mostrar trabalho, uma equipa de futebol só tem 11 lugares. Mas logo o tédio foi tomando de assalto os jogadores. E foi assim que estes se lembraram que continuavam por negociar os prémios de participação e as respectivas comparticipações nas receitas publicitárias angariadas. Como o presidente continuava em Lisboa, falaram com o vice e com o treinador. Mas a resposta tardou, os dias começaram a passar mais devagar e um dia a revolta aconteceu. Ou melhor, uma noite. Depois do jantar - mais uma vez servido pelo diligente Evaristo, cozinheiro famoso que tinha vindo de Portugal com a equipa -, os craques fecharam-se na sala do restaurante e decidiram... fazer greve. O 25 de Abril já tinha sido á 11 anos, o País vivia ainda os resquícios de PREC, mas, curiosamente, não aceitou muito bem a decisão dos jogadores, anunciada no dia seguinte, na penthouse do hotel, tendo como fundo a imensa paisagem da pradaria mexicana e a pequena cidade de Saltillo. Os telexes crepitaram, os telefones ficaram impedidos, mas a notícia chegou depressa à nação - os craques queriam dinheiro, caso contrário...
Joaquim Oliveira pensou que estava tudo perdido.
- Logo agora, que acabei que colocar o último painel! - desabafava para o seu irmão António, que também se tinha integrado na comitiva. Este, conhecedor de muitas marés e das manhas dos craques, desvalorizou a questão.
- Calma, Joaquim, isto ainda vai ao sítio - e dito isto reparou numa miúda que saía de um jeep.
- Esta, garanto-vos que nem vai entrar aqui! - disse para um jornalista. Dito e feito.
António trocou duas palavras com a miúda à entrada do hotel e seguiu com ela para o quarto.
- Este é craque em tudo - comentou o «mascote» da selecção, um velhinho fotógrafo de Albergaria que todos tratavam por «Admirável». Aliás, «Admirável» viria a revelar-se como uma peça fundamental nas negociações dos jogadores com os responsáveis da selecção, montando também guarda quando os craques se fechavam nos seus muitos plenários.
Estava Portugal inteiro suspenso do desfecho desta novela quando o presidente da Federação finalmente chegou. Mas a primeira coisas que fez foi ir à missa, o que deixou alguns jogadores desconfiados, pois pensaram que estava tudo descoberto e que o homem fora pedir perdão pelos muitos pecados cometidos no hotel «La Torre» desde que ali tinham chegado os portugueses. É que aquela história da segurança era tudo balela. Os próprios seguranças eram os primeiros a promover uma certa libertinagem, oferecendo todo o tipo de chicas pela módica quantia de dez dólares. Mas não eram muito bons a organizar, pois não raras vezes as chicas iam bater à porta dos jornalistas, e deles chegaram a aproveitar as ofertas...
No Hotel «La Torre», como se comentava mais tarde, «até as carochinhas e os esquilos marchavam». Após duas semanas de estágio, o pessoal feminino da limpeza já conhecia, por exemplo, todas as pregas da barriga do Evaristo, que um dia de tão entusiasmado, até se esqueceu de queimar o leite creme, o que ia originando outra revolta. As miúdas apareciam de todos os lados e convites não faltavam. Por exemplo, numa das noites de folga, alguns dos craques puderam mesmo viajar alguns quilómetros até a um rancho, onde se realizou um barbecue que ficou conhecido apenas pela antepenúltima e penúltima letras.
Joaquim Oliveira não via a hora de tudo aquilo se resolver, mas o seu desespero ainda estava longe de ter atingido o clímax. Que aconteceu depois da célebre noite em que o presidente da Federação brindou um grupo de jornalistas portugueses e brasileiros com uma sessão de anedotas picantes. Curiosamente, no dia seguinte estava praticamente tudo resolvido e para quase todos, menos para Joaquim Oliveira. Nessa noite, um pé-devento passou pelo campo de treinos e varreu os painéis publicitários ali colocados com tanto suor e empenho.
- Que mais me irá acontecer? - chorava Joaquim Oliveira, longe de imaginar que aquela tempestade era o início de uma carreira fulminante de empresário desportivo.
Depois da tempestade, veio a bonança. também podia ter vindo o Bonanza, que a paisagem era a ideal e não faltavam ali pistoleiros. Os jogadores acalmaram-se com a proximidade da competição, e um jornalista do «Libération», de rabinho de cavalo e caneta em punho, ficou profundamente desolado quando encontrou a equipa portuguesa a trabalhar no duro, embora sem resistir a umas tantas, e inevitáveis, escapadelas nocturnas. O defesa esquerdo, entretanto, apaixonou-se pela mulher do dono do hotel, sendo visto a namorar num banco de jardim ao lado da piscina. Entre os jornalistas, a rebaldaria era também geral, com uns a tomarem o partido dos dirigentes e outros o partido dos jogadores. Até se dizia que tinha sido um jornalista o redactor dos comunicados dos jogadores, para uns claramente decalcados das folhas de combate do PCP.

Esta controvérsia iria gerar, mais tarde, alguns desaguisados.
E o Joaquim? A vida melhorava para o Joaquim.
Acalmados os ventos e caladas as iras, finalmente a sua publicidade era vista em Portugal.
O Joaquim podia, enfim, ir à discoteca do outro lado da rua. Talvez o seu irmão lhe apresentasse uma miúda.
Miúdas...
Para um jogador muito especial, elas eram quase tudo. Futre, vedeta em ascensão, gostava muito delas mas também queria um lugar na equipa, fazendo tudo para o conseguir, ao ponto de em plena recepção do hotel levar o seleccionador ao desespero.
- Tenho de jogar, e ponto final - dizia do alto dos seus 19 anos. Como se não obtivesse certeza do facto, dedicava-se a outras actividades, ficando célebre uma longa espera da equipa.
- Onde andará o Futre? - perguntavam, até que alguém topou a sua cabeleira. Nas traseiras de uma pick-up de portas abertas, Futre era surpreendido na fase terminal da jogada ofensiva a que todos chamavam «chupa-chupa». A miúda não gostou muito da interrupção, e o Futre voltou a amuar.
- Ou isto, ou a titularidade! - ameaçou, mas já ninguém se importou com isso, especialmente depois de ter sido confirmada a notícia de que um português ali residente tinha sido apanhado a dormir com dois cameramen brasileiros...
Chegou o dia «D». Do outro lado, os ingleses eram claramente os favoritos. Do nosso lado, já ninguém sabia o que estava a valer, pois o melhor que se tinha arranjado como aferidor da forma da selecção tinha sido uma equipa de cozinheiros e estucadores. Girou a bola e a equipa portuguesa conseguiu marcar um golo, que foi quanto bastou para a vitória. Foi a festa. Embora ainda faltassem dois jogos para o fim do apuramento, a euforia instalou-se no Hotel La Torre e no dia seguinte houve festa. Na penthouse do hotel, os movimentos revolucionários eram trocados por outro tipo de manobras ofensivas, mas estas tendo como alvo jovens entre os 16 e os 25 anos. O sobe-e-desce durou quase toda a noite, ante o olhar benevolente do seleccionador e de uns tantos jornalistas que o acompanhavam nos copos.
O clima era de completa descontracção depois de uma série de dias de tensão. A vitória sobre a Inglaterra fez esquecer tudo o que estava para trás. Mas a seguir a esta vitória veio uma derrota, com a Polónia, e tudo voltou à estaca zero. Tudo se ia decidir noutra cidade, frente a uma selecção marroquina comandada por um brasileiro, que até mandou o recado de que se Portugal quisesse empatar o jogo, era capaz de se arranjar, pois o resultado também interessava à selecção que comandava. Passado o recado, um responsável da selecção reagiu com um arrogante «nem pensar, vamos é golear os gajos».
No bar do hotel, pela noite dentro, o seleccionador falava assim com o seu adjunto:
- Estou com fé...
- Na Nossa Senhora de Fátima?
- Não, pá, nos rapazes. Eles não podem perder, caso contrário são chacinados no regresso.
- Olha que não sei. No fundo, já fizeram bastante. Chegaram aqui, ganharam aos ingleses...
- ...comeram gajas em série...
- E nós?...
- Parvos fomos, pá!
No louco hotel de Guadalajara, os jogadores já se roíam de saudades das miúdas que tinham conhecido em Saltillo. Crê-se mesmo que essa seria a sua maior motivação para vencerem Marrocos, pois se tal acontecesse voltariam a jogar nas imediações de Saltillo.
Mas Portugal perdeu e por muitos. Oh desgraça!...

Joaquim Oliveira voltou a amuar, o irmão nem por isso (já estava cansado de «trabalhar as miúdas»), e até o embaixador acabou molhado da cabeça aos pés quando entrou no balneário da equipa portuguesa. Um dos craques, que tinha partido a perna depois do primeiro jogo (Bento), chorava a um canto, e o presidente mantinha-se na tribuna de honra, reunindo desde logo um grupo à volta e iniciando um discurso do tipo «eu bem dizia que estes excessos revolucionários...», o que desde logo mereceu parangonas na imprensa portuguesa do dia seguinte. Os heróis voltavam à sua condição de homens, melhor, de vermes.
Por isso, o regresso a Portugal fez-se praticamente em silêncio. E as miúdas de Saltillo, inconsoláveis, fizeram rezar missas pelo menos por o envio de uma carta. Um dos jogadores disse mesmo: «Selecção, nunca mais, com esta gente». António Oliveira apreciou a atitude, recordando os tempos em que se manteve coerentemente dissidente.
Ver-se-ia mais tarde que o jogador que António admirou também iria cumprir a sua promessa.
Onze anos depois, o Hotel La Torre continua no mesmo sítio. Um pouco mais degradado, é verdade, com menos água na piscina, mas a paisagem continua a ser a mesma. Só a mulher do Senhor La Torre já lá não mora, pois fugiu para Tijuana com um jogador de póquer.

terça-feira, novembro 14, 2006

Golpe de Estádio #08: Capítulo V (A Galinha dos Ovos de Ouro)

O clube de Pinto da Costa tinha atingido o auge tanto em termos nacionais como europeus. Era o apogeu, o delírio e o júbilo de um povo que nunca se tinha visto em tamanha aventura. PC fez esquecer o seu velho e grande amigo Pedroto, evitando qualquer comentário que pudesse recordar o velho mestre. A glória tinha de ser só sua e de mais ninguém. A cidade caiu-lhe aos pés, e foi a partir dessa altura que PC tomou consciência do poder que tinha e que Reinaldo Teles começou a alimentar a sua grande esperança de um dia vir a ser alguém no seu clube.
Reinaldo tinha Pinto da Costa quase na mão, através dos assíduos encontros deste último com as suas miúdas. As amantes sucediam-se e até entravam em lista de espera.
PC sentia-se um Dom-Juan e conhecia uma vida totalmente diferente daquela a que sempre foi habituado. O poder alimentou ainda mais a sua ambição e começaram aí as traições aos seus melhores amigos.
Umas como pura defesa pessoal, outras para abrir caminhos para os que iam chegando e prometiam uma maior subserviência, o que lhe dava a garantia de poder governar sozinho e principalmente sem ter de dar muitas explicações.

Os títulos traziam muito dinheiro para os cofres do clube Pinto da Costa já tinha esquecido os momentos em que era apenas um vendedor de fogões, muito embora continuasse ligado à mesma firma, onde mantinha uma posição superior. Os milhares com que tinha de lidar começaram a toldar-lhe a mente e a aumentar a sua ambição.
O seu clube era um grande chamariz para os grandes negócios e não faltaram oportunistas para tirar partido disso. Foi nessa altura que surgiu um empresário italiano muito ligado à venda de jogadores, mas com negócios ilícitos à mistura. Luciano D´Onofrio já tinha jogado futebol em Portugal, e acabou por criar raízes no nosso país, mais propriamente a sul, aproveitando uma grande parte do seu tempo para entrar nas redes ligadas ao tráfico de droga... e era mesmo vital aquele ponto geográfico para o negócio!
Luciano D´Onofrio, um indivíduo baixo, magro e com cara de rato, de nariz afilado mais parecendo um bico, apareceu pela mão de Reinaldo Teles e recebeu a benção de PC.
D´Onofrio era um empresário sem escrúpulos e com alguns mandatos de captura em diversos países europeus, precisamente por tráfico de droga, mas foi acolhido como uma pessoa de grande interesse para o clube. Pinto da Costa foi quem mais lucrou com a sua vinda. Os jogadores do seu clube inflacionaram-se no mercado europeu, e D´Onofrio viu ali um grande negócio para si e para PC. Em todos os jogadores que fossem negociados para o clube ou que saíssem dele, o presidente teria sempre a sua percentagem, desde que mais ninguém interferisse no negócio. Após o recebimento das primeiras comissões Pinto da Costa via-se rodeado por dois elementos ligados ao mundo do crime. Não era segredo para ninguém que Luciano D´Onofrio tinha ligações com a Mafia italiana e que Reinaldo mais alguns familiares viveram sempre de habilidades e negócios marginais, negócios centralizados na prostituição e na receptação de objectos roubados. «Pena é que estes ramos não estejam inscritos nos fundos comunitários», costumava dizer Reinaldo, que um dia ficou deliciado quando em Amesterdão viu umas garinas expostas em montras. Por um só momento, Reinaldo viu a rua de Santa Catarina transformada um gigantesco bordel, imaginando situações do tipo «leve três e pague duas» ou «pague o seu bacanal em dez suaves prestações». Mas era sonhar muito alto.
Foi este tipo de gente que fez engolir em seco muitas pessoas honestas e com dignidade que estavam ligadas ao clube. Alguns protestaram, defenderam a ideia de que o clube tinha de ser gerido com mais transparência e acabaram por ser afastados. Como aconteceu com Alberto Magalhães, reputadíssimo empresário.
PC, cada vez mais lá no alto, qual Deus do Olimpo, qual César à frente das legiões, não dava tréguas:
- Aqui quem manda sou eu, e quem não estiver bem que se afaste!
O clube vivia momentos conturbados em termos directivos, mas os resultados desportivos eram óptimos. Consequentemente, Reinaldo Teles ia subindo na hierarquia do clube. Já tinha subido de chefe de segurança a chefe de departamento de futebol, uma ascensão que deixou muita gente de boca aberta, mas que foi aceite sem grande contestação, pois nessa altura já Reinaldo tinha todo o seu staff de segurança organizado. Reuniu alguns dos maiores rufias da cidade, alguns dos seus conhecidos dos negócios marginais e de prostituição, e impôs um cordão de silêncio tanto a jornalistas como a dirigentes. Quem contestasse ou denunciasse algo que não convinha, recebia a visita de um desses marginais e ficava sem vontade de dizer mais nada, subordinando-se ao silêncio e à aceitação dos factos. Nem os sócios conseguiam fugir a esta perseguição.
Mas quando as derrotas surgem ou os resultados demoram a aparecer e as exibições não são as melhores, há sempre associados que contestam. No final de um jogo em que o clube tinha perdido, um associado, passando ao lado dos balneários, não se coibiu de lançar alguns insultos ao presidente e seus pares.
- Filhos da puta, chulos, vão trabalhar!
Pinto da Costa, que estava de sobretudo e mãos nos bolsos, tendo a seu lado Reinaldo Teles e mais dois dirigentes de menor importância, todos rodeados por quatro capangas, deu de imediato uma ordem em surdina:
- Fodam-me esse gajo!

Os quatro capangas deram meia volta, seguiram o indivíduo até às imediações do estádio e deram-lhe uma sova, perante o olhar incrédulo das outras pessoas que não sabiam muito bem o que se estava a passar. Era a lei da força e do silêncio.
O esquema estava montado, e dirigente que ousasse abandonar o clube e falar do que ouviu ou viu, sabia bem o que lhe poderia acontecer.
O grupo de seguranças foi-se refinando alicerçado pela parcialidade e impunidade com que os próprios jagunços era tratados e alongou-se até alguns agentes de autoridade que não se importavam de ostentar as suas armas como forma de intimidação. Foi sobre esta onde de poder e segurança que Pinto da Costa construiu o seu império e imperializou a sua própria imagem. Ele sentia-se um Al Capone à portuguesa, com a vantagem de não poder ser apanhado pelo fisco, pois não tinha rendimentos legais que justificassem qualquer tributação. Tinha, isso sim, o poder nas mãos e ficou ainda mais seguro disso a partir do dia em que se aliou a um bruxo muito conceituado em terras brasileiras que dava pelo nome de Pai João (Delane Vieira), um bruxo que não se limitava aos orixás, fornecendo também a equipa de futebol com frasquinhos de vidro que continham um guaraná em pó muito especial, esmagado por uma tribo de índios do interior do Brasil. O speed, normalmente recomendado para os gulosos do sexo, ajudava os craques e, aliado à normal injecção de «vitaminas», tornava-os super-homens dentro do campo. E era certo que a aparelhagem do anti-doping estava completamente desajustada para detectar o que quer que fosse. Mas até este sector, a seu tempo, foi devidamente controlado.
Entretanto, Reinaldo Teles não cessava a sua actividade, continuando a arranjar as melhores amantes para Pinto da Costa e a dar-lhe toda a protecção. Rodeado de poder, mas ainda sem dinheiro, o presidente, como lhe chamava Reinaldo, tinha algumas limitações, mas nunca esqueceu o velho amigo Ilídio Pinto, a quem continuava a extorquir o dinheiro que queria para efectuar alguns negócios, sempre com a promessa de que um dia este viria a ser vice do futebol profissional.
- É uma questão de tempo. Você tem de ter paciência. Necessito de si em lugares mais importantes para a vida do clube. Um dia o futebol será seu.

Com estas palavras de Pinto da Costa, o Ilídio lá ia passando uns cheques e cobrindo algumas despesas, porque fortuna pessoal foi coisa que nunca se conheceu ao presidente.
O grande negócio acabaria por surgir.

Um clube espanhol (Atlético de Madrid) interessou-se pela aquisição de Futre, e o seu presidente resolveu vir a Portugal contactar o jogador, sem antes consultar o clube de Pinto da Costa. Mas a organização, constituída por mais de uma dezena de guardacostas, estava sempre bem informado de tudo quanto se passava na cidade e essencialmente dos assuntos que diziam respeito ao clube. Por isso, quando chegou a boa nova de que o presidente do clube espanhol estava em Portugal para falar com Futre, foi de imediato colocado um plano de ataque em marcha, cujo nome de código era «A Caça à Peseta».
Apesar de Gil y Gil estar, no seu país, bem à altura de Pinto da Costa, quando veio a Portugal estava muito longe de saber o que lhe ia acontecer. Chegou ao Porto e combinou encontro com um empresário, para avaliar a possibilidade de levar Futre para Espanha. O bar era pequeno e decorado de uma forma simples. No fundo da sala, um pouco na penumbra, estava sentado Gil y Gil à espera do tal empresário quando irromperam pela sala dentro quatro indivíduos que, sem darem cavaco a ninguém, o rodearam e apertaram contra a parede, lançando o aviso:
- Se voltas aqui sem primeiro falares com o presidente do nosso clube, podes ter a certeza que não sais daqui vivo. Na próxima, não há aviso! - rugiu Reinaldo, decalcando o final da sua declaração de um filme que tinha visto em Pinheiro da Cruz.

Estas palavras foram ditas com tanta certeza e segurança que Gil y Gil quase se mijou pelas pernas abaixo. Fora a sua primeira lição como futuro presidente de um dos melhores clubes espanhóis. «Coño, em Portugal não se brinca», suspirou, ainda com as pernas a tremer como varinhas verdes.
Gil y Gil não disse palavra, limitando-se a sair do bar e a enfiar-se na sua viatura, acelerando, sem olhar para trás, até Espanha. Gil até se esqueceu de comprar um queijo da serra em Vilar Formoso, como prometera a Carmen, a sua amante de Madrid/Sul.
Já no seu território, contactou directamente com Pinto da Costa, e este, sem muitas palavras, indicou-lhe um interlocutor: Luciano D´Onofrio.
- O seu braço direito? - quis saber Gil.
- Mais ou menos, pois será ele a conduzir o assunto - informou PC.
Gil y Gil ficou tão impressionado com a acção de Pinto da Costa que resolveu oferecer um extra ao seu congénere português: uma vivenda em Madrid.
- Sim senhor, mas numa zona fina, se faz favor - aceitou PC de pronto.
D´Onofrio entretanto colocou outro jogador (Rui Barros)de PC num clube italiano (Juventus) e a soma da venda de Futre e desse jogador vendido para Itália foi de 1 milhão e 200 mil contos, uma verba que PC nunca teria imaginado poder passar pelas suas mãos. De imediato, PC juntou todo aquele dinheiro e abriu uma conta particular, prometendo aos seus parceiros de direcção que aquela verba iria servir exclusivamente para a compra de jogadores para o clube. Todos acreditaram, mas esse dinheiro desapareceu como o fumo. Para amostra não ficou nem sequer um mísero escudo.
As ligações de Pinto da Costa com situações marginais começaram a ser comentadas, e isso criou um certo descontentamento entre alguns directores, nomeadamente no patrão da sua empresa, Alfredo Costa, e presidente do Conselho Fiscal do clube.

Ninguém como Alfredo Costa conhecia a vida de Pinto da Costa e, por isso, sabia muito bem que este andava a vivera além das suas reais possibilidades, entrando em outros negócios e noutras sociedades, sem se lhe conhecer a proveniência do dinheiro. Desconfiado desta situação, como presidente do Conselho Fiscal do Clube, Alfredo Costa um dia interpelou Pinto da Costa sobre o milhão e duzentos mil contos da venda dos dois jogadores, mas como resposta obteve apenas:
- Não tenho de dar contas a ninguém.

Alfredo Costa estava de pé frente à secretária de Pinto da Costa e quase não acreditou no que estava a ouvir. Aquela era a confirmação de que o dinheiro tinha mesmo desaparecido e não pactuou mais com a situação, demitindo-se do seu lugar de presidente do Conselho Fiscal do clube, ao mesmo tempo que intimava Pinto da Costa a abandonar a sua empresa.
Alfredo Costa não teve contemplações:
- Recuso-se a trabalhar com gente desonesta. Na minha empresa não posso ter indivíduos do seu quilate.

Pinto da Costa estava na mó de cima e não ficou muito preocupado com a situação.
Uma grande parte daquele milhão tinha sido investido em várias empresas com ligações a familiares seus, mas sem o mínimo de capacidade de gestão, e todas acabaram por falir. O dinheiro fácil nunca é bem gerido, e o clube já estava a pagar as aventuras do seu presidente.
Mas os fiéis associados pouco se importavam com essas contas. Eles não queriam saber de gestão, mas de golos, e esses não faltavam. Pinto da Costa e Reinaldo Teles também sabiam disso e tinham de se organizar no sentido de garantir que esses golos e essas vitórias nunca haveriam de faltar.
Para deixar a empresa onde trabalhava, Pinto da Costa ainda teve que pagar sete mil contos e ficou sem carro por uns tempos. O milhão e tal de contos tinha desaparecido sem deixar rastos e tinha deixado de...rastos PC, a contas com a justiça, por cheques sem cobertura e penhoras a bens pessoais. Foi um momento difícil, mas que não abateu o presidente, levando-o antes a pensar que o seu negócio era o futebol. Era nessa área que se movia como peixe na água, e a modalidade não estava a ser devidamente explorada. Todos os movimentos foram reprogramados, de forma a que o clube tivesse uma gestão capaz de alimentar o seu presidente.
Reinaldo Teles acabou por subir na escala do poder no clube. O vice para o futebol foi afastado, e Reinaldo chegou-se mais ao presidente, ocupando o lugar deixado vago.
A vaidade pessoal de Reinaldo levou-o a abrir mais uma casa de alternos, desta vez mais chique e refinada. As putas eram de melhor qualidade e o champanhe também.

Pinto da Costa não perdia um strip-tease, e quando lhe agradava, saboreava ao vivo a estrela do espectáculo. PC sentia-se cada vez mais um Al Capone à portuguesa.
Sempre rodeado de guarda-costas, assumia a pose do gangster e já tratava as raparigas da forma que um dia vira num filme americano, nos seus tempos de liceu.

Tinham surgido alguns escândalos e alimentava-se a desconfiança em relação à forma como os dinheiros estavam a ser geridos e distribuídos, mas aos poucos a organização refinou-se, de forma a não deixar rastos. Luciano D´Onofrio era um gangsterzinho e foi-se apercebendo da forma pouco cuidada e pouco profissional como os assuntos eram tratados e em alguns negócios governou-se com mais dinheiro do que aquele que ficara combinado, e para anular essas fugas, Pinto da Costa resolveu montar uma sociedade secreta na Suíça para que existisse um maior secretismo. D´Onofrio era uma figura envolta em algum mistério. Tanto aparecia como, quase por artes mágicas, desaparecia, o que acontecia normalmente quando se adivinhavam maus momentos. Estas artes de prestidigitador livram-no de muitos sarilhos, embora alguns anos mais tarde Luciano não tivesse conseguido evitar alguns dias de detenção num calabouço suíço, por suposta ligação a um caso futebolístico que abalou o futebol Francês (Marselha).
PC confiava cegamente no seu amigo Luciano.
- D´Onofrio, vamos legalizar a nossa situação montando uma empresa de compra e venda de jogadores. No meu clube só você vende e compra todos os atletas, mas podemos estender o nosso negócio até outros clubes desde que se mantenha segredo absoluto.
- Está bem , presidente, você é que manda. Um dia ainda há-se ser como o Berlusconi.
Pinto da Costa não perdeu tempo.
- Vamos já formar essa sociedade, porque tenho um negócio para ser feito já.
Na semana seguinte já estavam os dois na Suíça para legalizarem a empresa de compra e venda de jogadores.

O seu primeiro negócio foi com um clube Francês (Matra Racing de Paris) cujo treinador (Artur Jorge) já tinha passado pelo clube de PC.
- Temos de realizar dinheiro, porque as coisas não estão muito boas. As empresas que tenho montado têm dado uma grande barraca e levam-me o dinheiro todo. Temos o Plácido para vender a um clube francês.
Luciano D´Onofrio arregalou os olhos e disse com espanto:
- Mas, presidente, esse jogador não tem cotação europeia.
- Não se preocupe com isso, porque quem lá está vai querê-lo.
D´Onofrio, ainda sem acreditar no que ouvia, apesar de toda a sua experiência no mundo das vigarices, perguntou:
- Como vai ser feito o negócio?
- O nosso clube vende o Plácido à nosso empresa por 60 mil contos e nós vendemo-lo ao clube francês por 160 mil contos.
- Desses negócios é que eu gosto. Ganhamos mais que o clube.
- Tenho que dar uma volta à minha vida e começar a ganhar dinheiro, porque o que já perdi não foi pouco. No futebol é que está o nosso grande negócio.
Luciano D´Onofrio arregalou os olhos e pensou de imediato em ir um pouco mais adiante, mas resolveu não falar disso com o presidente. Preferia colocar o problema a Reinaldo Teles, que era um elemento mais acessível para as situações de ilegalidade.
Logo que pôde, encontrou-se com Reinaldo Teles e convenceu-o a falar com o presidente.
- Reinaldo, temos um negócio que dá dinheiro que se farta, mas tens de ser tu a falar disso ao presidente.
Reinaldo olhou-o pensativo, mas lá acabou por se decidir.
- Não venhas com tangas p´ra mim. Diz lá que o que queres que proponha ao presidente.
- Tenho feito aí uns negócios com cocaína e nem imaginas o lucro que isso dá.
- Estás maluco. Pensas que o presidente vai numa coisa dessas?
- As coisas estão más e é necessário realizar dinheiro. Com a protecção que o futebol dá, podemos trabalhar à vontade.

Reinaldo Teles convenceu-se de que, de facto, havia alguma razão nas palavras de Luciano D´Onofrio e comprometeu-se a falar com o presidente sobre o assunto.
Pinto da Costa ouviu atentamente Reinaldo e mandou-o avançar com a ideia, mas ele queria ficar de fora.
- Resolvam lá isso vocês os dois, mas deixem-me de fora para poder controlar melhor a situação.

Reinaldo Teles não era burro e ficou desconfiado. Naquele momento não disse nada mas, passados dias, voltou a falar do assuntos.
- O melhor é ficarmos os dois de fora, e eu arranjo alguém para tratar do assunto directamente com D´Onofrio.
De início, o negócio correu bastante bem, mas passados alguns meses, a polícia começou a ameaçar com algumas buscas, tendo inclusive ido esperar o autocarro do clube à portagem dos Carvalhos para o revistar de alto a baixo. Mas nunca encontrou nada, porque a rede estava bem montada e não faltavam informadores. No entanto, Pinto da Costa sentiu o perigo que essa situação podia estar a criar e, como tinha consciência de que inimigos era coisa que não lhe faltava, depois das primeiras prisões de pessoas ligadas ao grupo que actuava em paralelo com D´Onofrio, deu ordem para se terminar com o negócio da cocaína que começava a ser vendida um pouco descaradamente pelos jogadores de futebol.
Pinto da Costa não perdia tempo. Não dormia só para pensar. A «coca» garantia muitas horas de espertina, no fim de contas.

terça-feira, novembro 07, 2006

Golpe de Estádio #07: Capítulo IV (Finalmente, o Poder)

Aproximavam-se novas eleições e Pinto da Costa ia ganhando terreno. O treinador Austríaco (Hermann Stessl) que fora convidado para tomar conta do seu clube sob a gerência de Américo de Sá não estava a dar conta do recado. Os sócios habituaram-se aos títulos e queriam mais, mas a bola teimava em não entrar na baliza.
Enquanto isso, PC esfregava as mãos e preparava a sua candidatura. Os apoios eram cada vez mais fortes, e uma nova estratégia foi colocada em movimento. Ele tinha de apostar forte na vitória eleitoral e, aproveitando os maus resultados da equipa, organizou por todas as freguesias da cidade sessões de esclarecimento com uma programação meticulosa. Iniciava-se, assim, a «Operação Ácido Sulfúrico», cuja alternativa, em caso de falhanço, tinha o nome de código de «Operação Cicuta».
Na organização dos seus comícios, PC deu sempre preferência aos bairros pobres e à parte velha da cidade. Era aí que estava o povo e a força do clube. PC organizou o seu staff comandando um grupo de associados aos quais impôs serem eles a obrigarem-no a partir para uma candidatura. Desenvolveu-se então o célebre grupo dos 500, do qual saíram elementos devidamente comandados que se distribuíam pelos cantos das salas onde eram organizadas as tais sessões de esclarecimento. A missão deles era empolgar as sessões e fazer perguntas previamente combinadas com Pinto da Costa.
Numa dessas noites, na Associação Recreativa de Miragaia, foi assim:
- Presidente, qual é o principal inimigo do clube?
- Antes de mais, repito, ainda não presidente...
Gargalhada geral, e PC tomou as rédeas à sala, não evitando porém a queda de estuque sobre o novo casaco.
- O principal inimigo está dentro do clube, o servilismo a Lisboa. Estamos fartos de ser espoliados. Chegou a hora de dizer «basta».
Com uma cajadada, PC matava dois coelhos. Para além do mais, o discurso saía-lhe cada vez mais com mais facilidade e tudo era acompanhado, comentado e analisado pelo imprensa desportiva e jornais diários. A cidade e Américo de Sá viviam sob o fogo cerrado de Pinto da Costa. O presidente já não podia sair á rua sozinho, e as assembleias gerais eram cada vez mais escaldantes, levando mesmo o doutor Sá ao desespero e a chorar em público. Foi nessa altura que Reinaldo Teles teve o seu papel mais importante. Organizou um grupo de guarda-costas recrutados nos quadros da secção de boxe do clube que, com alguns rufias nocturnos á mistura, organizou alguns ataques a jornalistas que de uma forma ou outra denunciavam a protecção a Pinto da Costa. Evidenciando alguma inteligência e revelando o seu carácter de hipócrita, Reinaldo Teles verificou que a derrota de Américo de Sá era mais que evidente, e assim se foi distanciando da protecção que prometera ao seu presidente. Algumas figuras notáveis da cidade aliaram-se a Pinto da Costa e, no momento das eleições, a derrota foi fatal para Américo de Sá.
Pinto da Costa tinha conseguido realizar o seu sonho, levando como trunfo o seu grande amigo e companheiro de luta Pedroto, o técnico que tinha conseguido o título para o seu clube.
Fernando Gomes, o ponta de lança mais cobiçado, tinha sido emprestado a um clube Espanhol e serviu de bandeira para ajudar á vitória. Também ele regressou. Mas António Oliveira, o ex-capitão que nunca se deixou dominar pelos desígnios de Américo de Sá, recusando-se terminantemente a regressar ao clube, passou por momentos bem difíceis.

Não de ordem económica, mas psicológica. Tinham-lhe sido vedadas todas as entradas numa equipa que estivesse ao seu nível. Foi marginalizado e refugiou-se num grupo de amigos, não recebendo a ajuda de ninguém, mesmo de Pinto da Costa, pelo qual deu a cara. António Oliveira era uma vedeta do nosso futebol, uma estrela, um génio, e não podias ser esquecido. Foram meses de desespero. Foi sair da ribalta para o anonimato, mas nada vergou a personalidade deste jogador, Ficou sozinho, mas manteve a classe que sempre foi a sua imagem de marca.
Sem clube e sem a mínima vontade de treinar, refugiou-se no ambiente nocturno tão ao seu gosto. Copos e mulheres eram a alma que mantinha de pé a forte estrutura psíquica do «Caddilaque» - apelido que carinhosamente lhe fora colocado pelos amigos mais chegados. Eram bacanais atrás de bacanais devidamente organizados no seu apartamento. Por aquele espaço passaram os melhores ballets de inglesas que actuavam nos casinos nortenhos, as melhores strip-teasers, as habituais frequentadoras das discotecas e também travestis que satisfaziam as delícias de algumas convidadas lésbicas e bissexuais. Sexo em grupo era o prato forte.
Após alguns meses de paragem, António Oliveira resolveu voltar à actividade, mas antes, na companhia de alguns amigos foi passar uns dias a Bordéus, onde esteve a ajudar na vindima. E só no seu regresso, com um visual totalmente novo, de cabelo encaracolado e sem bigode, aceitou um convite do clube da sua terra natal (Penafiel).
Tinha uma equipa modesta, mas como era treinador-jogador, abria uma actividade totalmente nova no nosso futebol, revolucionando o sistema e isso teria sempre um enorme impacto mediático. Era a demonstração cabal de que António era, de facto um homem inteligente, que sabia estar e conhecia o terreno que pisava. A sua estrela voltava a brilhar e de tal forma que logo foi cobiçado por um grande clube da capital.
António não sabia viver sem a companhia do seu irmão, o Joaquim Oliveira. Foram sempre muito chegados. O Joaquim Oliveira tinha uma discoteca de alternos e rivalizava com Reinaldo Teles. O seu mundo eram as putas, tal como Reinaldo, de quem diferia muito em termos de personalidade e carácter. Reinaldo era um valentão. Joaquim Oliveira era pacífico e não era chulo, muito pelo contrário: chamavam-lhe andor porque gostava de se rodear de putas e pagar tudo. Todas as noites promovia ceias com dançarinas e também com algumas miúdas ligadas aos alternos. Levava sempre consigo amigos para se querer impor e provar que também era alguém. O negócio não dava para tudo, e vieram as dificuldades. As dívidas aumentaram e, com a ida do seu irmão para um clube da capital (Sporting) tudo piorava. Vieram as penhoras. E logo que António Oliveira se impôs no seu novo clube, tratou de arranjar um negócio para o seu irmão, uma queijaria nas imediações do estádio, onde era normal alguns jornalistas abastecerem-se sem pagar ou apenas por um preço simbólico (mantinha-se assim a tradição de «pato»). O irmão, pelo seu lado tinha-se assumido novamente como jogador treinador e, com a ajuda do seu novo presidente, resolveu abrir uma agência de contratações de jogadores. A sua missão era contratar jogadores não só para o clube do seu primo, mas também para os outros.
Foi criada a Olivedesportos.
Mas Joaquim Oliveira não estava talhado para esta missão cuja actividade em Portugal ainda era muito pouco reconhecida. A fuga acabou por surgir através de um sistema de publicidade montado nos estádios, explorando os painéis. António e o seu irmão Joaquim continuavam de boas relações com Pinto da Costa, mas este quando, quando foi eleito presidente, resolveu encetar uma pequena guerra com João Rocha, ex-imigrante nos «States» e presidente do clube onde António estava a jogar e a treinar (Sporting). As relações entre ambos esfriaram até á altura em que Pinto da Costa resolveu tentar trazer novamente o António para o seu clube, mas o jogador manteve sempre um comportamento de grande responsabilidade. Para além de alguns defeitos, tinha uma grande virtude: nunca esquecia os seus amigos. João Rocha fora o homem
que lhe dera uma nova oportunidade para voltar ao top do futebol português, que o ajudou a montar a agência de publicidade para o seu irmão num momento difícil para ambos, e António não podia de forma alguma esquecer tudo isso. Recusou o convite, mas Pinto da Costa não perdoou.

A guerra estabeleceu-se entre ambos até ao ódio e continuou até muito depois de António ter abandonado o clube da capital e optado pela actividade de treinador.
António e o seu irmão nem queriam ouvir falar em Pinto da Costa. «Dá comichão só de pensar nele», dizia um deles, o mais novo, mas claramente o mais esperto. A guerra entre os dois clubes e os respectivos presidentes foi aumentando. Pinto da Costa tinha feito com que o seu clube voltasse às vitórias e aos títulos e, como sempre foi amante de uma guerrinha, mantinha a sua bem acesa com João Rocha. A estratégia era de Pedroto:
- No Norte só há um clube com força e na capital há dois, por isso só há uma forma de os poder dividir e lutarmos contra eles. Temos de estar sempre bem com um e abrir guerra ao outro.
Pinto da Costa absorveu a filosofia do «mestre» e acrescentou:
- Tens toda a razão e até podemos alternar essa guerra, abrindo fogo sempre sobre o clube que estiver em melhores condições para poder lutar pelo título.

Frustrada a tentativa de levar para o seu clube o António e em resposta a João Rocha por este ter ripostado com a contratação de dois jogadores da sua equipa, Pinto da Costa numa acção relâmpago contratou um miúdo que na altura estava a dar nas vistas no clube do seu inimigo João Rocha. Nessa altura, estava longe de imaginar que seria aquele jogador que iria dar início ao seu grande golpe de estádio. O miúdo morava no Montijo e era anunciado como um craque de eleição. Mas o clube de Rocha abriu a guarda e, numa noite de lua cheia, um funcionário do clube rival do Norte acelerou no seu Renault até ao Montijo, não se esqueceu de comprar no caminho um pão-de-ló em Rio Maior para oferecer à família do rapaz e trouxe-o para a «Invicta», onde o craque se manteve como que sequestrado durante alguns dias. «É o Eusébio branco», dizia-se, se calhar com alguma legitimidade. O craque era conhecido pelo nome de guerra de Futre.
Entretanto, Reinaldo Teles, depois de ter abandonado Américo de Sá, mesmo antes de este ter perdido as eleições, insinuou-se perante PC e, como este ainda não se tinha esquecido da dimensão das dificuldades que lhe foram criadas pelo rapazinho que era treinador de boxe do seu clube, achou por bem abrir-lhe a porta e oferecer-lhe o lugar de chefe se segurança. Reinaldo Teles, consta, mandou abrir duas garrafas de champanhe «Moelas & Cabron», marca que o Fuinha, um dos seus empregados, não conseguiu encontrar no mercado, mas no fim ninguém reparava que era apenas «Raposeira» o néctar que entrondeava.
Pedroto nunca esteve muito de acordo com essa acção. Era um indivíduo seguro, competente e com grande personalidade e não gostava muito, nem sequer apoiava, acções de violência ou de alguma forma marginais. Lutava por aquilo em que acreditava e tecia estratégias para a sua luta, contestando, vociferando e acusando de uma forma directa.
Tornou-se polémico, irreverente e estabeleceu uma acção de combate virada essencialmente para a arbitragem, cujo controlo partia da capital. Por isso, contratou para a sua equipa um ex-jornalista (Luis César) com a mania das estatísticas, e a sua primeira missão foi a de elaborar um ficheiro de todos os árbitros de 1ª categoria, contendo o maior número de informações. Nome, morada, actividade extra, número de filhos e datas de nascimento de toda a gente do agregado familiar. Como era contra a violência, e Pinto da Costa não se cansava de gabar os dotes de Reinaldo Teles, Pedroto pediu ao presidente para lhe entregar a missão de ir a casa dos árbitros no dia do aniversário destes ou de um dos seus familiares para entregar uma pequena lembrança, independentemente do facto de esse árbitro ter ou não ter apitado qualquer jogo do clube. Era o início de uma operação de charme que resultaria em pleno.
- Reinaldo, hoje tens de ir a Setúbal entregar uma prenda para o filho do árbitro Carlos Fortes, que faz anos- pediu, certo dia, PC.

Reinaldo Teles, sempre pronto para estas acções, lá rumou até Setúbal com um fio de ouro e uma medalha gravada com o nome do filho do árbitro. Mas, quando lá chegou, não encontrou ninguém em casa. Uma vizinha, que estava na varanda a estender roupa, disse-lhe que tinham ido todos a casa da sogra festejar os anos do miúdo. Reinaldo não perdeu tempo:
- Sabe dizer-me onde mora a sogra?
- Mora em Lisboa - respondeu a vizinha, dando de imediato a respectiva morada.
Reinaldo atravessou a Ponte e uma hora depois lá estava na casa da sogra de Carlos Fortes para entregar a respectiva prenda ao filho do árbitro.

Cenas como esta sucederam-se, e todos aceitavam com agrado tamanha amabilidade.
Era um gesto bonito e que ninguém podia condenar. Não estava em causa qualquer jogo ou favor, mas uma amabilidade que não era muito normal no futebol.
Pinto da Costa e Pedroto tinham escolhido a pessoa ideal para executar tal missão.
Reinaldo Teles era bem sucedido quando espelhava a face da inocência, do desinteresse, do bom amigo.
Foram dezenas e dezenas de missões como esta que deram entrada a Reinaldo Teles na intimidade dos árbitros. Depois de um gesto daqueles, era normal que convidassem Reinaldo para um brinde ou mesmo para ficar um pouco na festa familiar. Nasceram amizades e compadrios. Convites para encontros mais para o Norte e de preferência no seu bar de alternos, com mulheres e copos disponíveis. Luísa tinha tomado conta do negócio, e a sua experiência de mulher da vida muito batida ajudava a controlar e a organizar umas cenas de sexo com as miúdas escolhidas pelos árbitros que visitavam Reinaldo no seu estabelecimento.
Pedroto desconfiava da situação e andava assustado com o negócio, mas a doença tomou conta dele e perdeu força, muito embora comandasse todas as operações e estabelecesse estratégias a partir do seu leito, com a cumplicidade do seu fiel adjunto António.
Pinto da Costa não gostava da política que estava a ser adoptada e, picado por Reinaldo Teles, com quem tinha relações já muito estreitas, começou a trair o seu grande amigo Pedroto.
Reinaldo sabia que o técnico não gostava muito do seu estilo nem apoiava algumas das suas acções. Queria dar dignidade ao clube, e um chulo não seria a personagem ideal para representar em diversas acções a grandiosidade do projecto que ele queria atingir.
Reinaldo Teles sabia insinuar-se perante as pessoas. Começou a convidar o presidente para uns copos no seu território. PC nunca se tinha visto rodeado de tantas mulheres. Tinha uma educação de seminarista e nunca lhe passara pela cabeça trair a sua mulher, mas um dia não resistiu às investidas de uma das funcionárias do seu grande amigo Reinaldo Teles. A mulher tinha sido bem escolhida por Luísa e educada por Reinaldo. PC sentiu-se no céu, quando desceu ao leito do amor. Nunca tinha vivido experiência como aquela. Deu consigo a pensar:
- Como é que foi possível andar 40 anos sem conhecer uma experiência como esta?
Reinaldo tinha ganho a sua primeira batalha. O presidente ficou agarrado a ele através do amor de terceiras (e de quartas, quintas, sextas... não sendo também incomum aos sábados...). Vieram outras experiências, outras mulheres e Pinto da Costa andava eufórico.
Depois de Pedroto ter morrido, Reinaldo Teles passou a ser o expoente máximo de Pinto da Costa, e os outros vice-presidentes do clube não andavam nada contentes com a situação. Um dos grandes amigos de PC chegou mesmo a comentar:

- O PC tem uma cabeça extraordinária. O seu mal foi ter começado a ir ao pito aos 40 anos.
Isto dito assim nem parece nada, mas a verdade é que a vida nocturna transformou por completo Pinto da Costa, que pensou, por momentos, ter alcançado o paraíso na Terra.
Reinaldo Teles tinha uma influência extraordinária sobre PC, levando-o mesmo a dizer que só confiava em Reinaldo e no seu gato. Luísa geria o «Play-Girl», o novo bar de Reinaldo, com uma eficiência extraordinária, mas não passava de uma ex-puta, ou mais propriamente de uma puta reformada, mas ainda com boa pinta. A amizade entre ela e PC tinha aumentado graças aos excelentes encontros que ela lhe ia conseguindo com as suas melhores raparigas.
A ligação de Reinaldo Teles ao futebol proporcionava-lhe bons negócios e passos gigantescos na sua ascensão na direcção do clube. A acção de charme com os árbitros evoluía cada vez mais. Os dirigente que não aceitavam Reinaldo iam sendo afastados. Mesmo aqueles que já tinham uma amizade de longos anos com Pinto da Costa. O sexo tinha tomado conta da mente do homem e não havia nada nem ninguém capaz de o fazer parar e encarar a situação de uma forma mais digna. A assiduidade de Pinto da Costa era quase diária e não havia forma de alterar os hábitos adquiridos. As mulheres desfilavam pela sua mesa e ele só tinha de escolher qual queria comer e a forma como o queria fazer. Era norma ser o patrão o primeiro a experimentar as novas empregadas, mas essa função no «Play-Girl» passou a pertencer a PC.
Era a porta aberta para o êxito e a ascensão de Reinaldo Teles.

terça-feira, outubro 31, 2006

Golpe de Estádio #06: Capítulo III (Teles, Reinaldo Teles)

Pinto da Costa assumiu a derrota, mas não a digeriu. Parecia perdido para o futebol.
A sua atitude revolucionária tinha deixado marcas bastante profundas. O seu futuro como dirigente estava severamente comprometido, mas Pinto da Costa sempre acreditou que no futebol é o golo que comanda as atitudes e as situações e que provoca a queda dos dirigentes e treinadores. Por isso, PC não se deixava abater com tanta facilidade. A sua resistência não tinha limites e afinal só tinha perdido uma batalha. O importante, agora, era fazer com que o seu clube tivesse alguns desaires. Tinha, por isso, de montar a sua estratégia, mesmo sem os seus anteriores aliados.
Os seus companheiros, os da tentativa de revolução, colocaram-se á margem para se aliarem a quem ficou com o poder, e os profissionais seguiriam o seu rumo, a sua vida era aquela; e, mais tarde ou mais cedo, acabariam por surgir novos empregos. Eram artistas do futebol, tinham mérito e qualidade. O seu caso era mais difícil. Era um dirigente com algum carisma ganho á custa do prestígio de Pedroto. A sua personalidade e capacidade ainda não tinham sido verdadeiramente testadas. Faltava-lhe prestígio para fazer frente a Américo de Sá. E não podia continuar a vender fogões toda a vida...
Sem abandonar os bastidores do futebol, foi minando a gerência de Américo de Sá.
Não era homem para ser derrotado com tanta facilidade, mas em alguns momentos chegou mesmo a sentir o desespero de uma causa que parecia perdida. Mestre a colocar o boato a circular, fez constar que um clube da capital lhe tinha dirigido o convite para assumir o comando do departamento de futebol. O objectivo era deixar passar a mensagem de que o inimigo tinha visto nele superiores qualidades e, perante tal facto, esperar que algumas vozes se levantassem, reconhecendo o erro que tinham cometido. Mas acabou por acontecer o contrário. A credibilidade de Pinto da Costa em relação ás posições que tomou em defesa do Norte foi afectada. Apercebendo-se de que a sua estratégia não resultara, logo se apressou a desmentir o
boato posto por ele a circular. As eleições estavam próximas e era necessário estabelecer um plano mais sólido para derrotar Américo de Sá. Não era homem para viver sob o domínio da derrota ou mudar de atitude procurando novamente as boas graças do presidente. Na sua personalidade e forma de estar não encaixava a imagem de um falhado.
Pinto da Costa passou a sua idade escolar num colégio onde imperava uma grande influência da religião católica e quando atingiu o liceu foi internado num colégio de padres. Dos mais prestigiados do Norte do País. Ali fabricavam-se verdadeiros homens. Eram testados como cobaias para poderem enfrentar no futuro as mais adversas contrariedades da vida. Uma das disciplinas era constituída pela defesa individual de cada aluno perante toda a turma e, já nessa altura Pinto da Costa era tido como o mais desenvolto no uso do discurso, na sua capacidade de raciocínio rápido e retenção na memória de dados essenciais. Inteligente e astuto como um verdadeiro jesuíta, bem cedo começou a demonstrar um grande sentido de chefia.
Sabia como dividir para reinar, utilizando um ar cândido e descomprometido quando algumas atitudes de má-fé lhe eram dirigidas.
Atirava a pedra e sabia como esconder a mão. Mas a sua verdadeira arma era a grande capacidade de trabalho e a completa dedicação a tudo o que fazia. Chegou a pensar ordenar-se padre, e o director do colégio apostava que, se ele seguisse essa carreira, iríamos ter o segundo Papa Português.
A sua postura, a sua forma de falar e de estar deram-lhe sempre um toque clerical. A mesma mão que abençoava os amigos, empunhava a cruz onde ele havia de crucificálos. Cativava, fazia amizades com facilidade e sabia como as utilizar e destruir como se nunca tivesse culpa de nada.
Nunca foi grande atleta, mas a sua paixão pelo desporto atirou-o para o dirigismo.
Começou por baixo, mas não foi necessário muito tempo para chegar ao topo da pirâmide.
Destronar Américo de Sá era agora o seu maior desafio. Começou então a rodear-se de amigos com algum prestígio no clube, procurando apoios para se candidatar. Tarefa que não era fácil. Na altura, para se ser presidente de um clube de futebol era necessário ser-se um empresário de sucesso e ter dinheiro disponível para enfrentar algumas situações, e esse não era o caso de Pinto da Costa. Ele sabia-o como ninguém e procurou então apoiar-se em pessoas abastadas economicamente, não dispensando o seu grande amigo, Ilídio Pinto.
Havia, no entanto, uma situação que era necessário ultrapassar. O Ilídio tinha-se encostado ao Américo de Sá, mas PC sabia que ele estaria sempre do lado de quem tivesse o poder e, com alguma facilidade, jogava sempre com um pau de dois bicos. O certo é que Ilídio tinha o dinheiro, e PC iria necessitar desse apoio. Tinha também na mão outra gente que vivia desafogadamente em termos financeiros e que por terem sido preteridos por Américo de Sá se colocaram do seu lado, mas esses eram mais inteligentes e não seria fácil arrancar-lhes o dinheiro sem lhes dar nada em troca. Não podia também colocar em risco uma nova derrota. Tinha de ir à luta pela certa, e o momento era propício porque se começava a notar um certa instabilidade no seio do clube. Tudo servia para se atacar a gerência de Américo de Sá. Faziam-se assembleias gerais agitadíssimas, com Pinto da Costa a colocar algumas pessoas estrategicamente no meio dos sócios a criar a confusão.
Américo de Sá passou momentos de grande desespero, porque lhe era impossível controlar a situação. Foi então que tomou consciência da existência de um jovem com alguma história no clube. Reinaldo Teles, campeão nacional de boxe e na altura treinador, foi a solução encontrada para controlar as agitadas assembleias gerais. Expugilista, brigão, chulo e nutrindo uma certa paixão por negócios ilícitos, ofereceu-se para arrumar a casa e impor a ordem nas confusões programadas por Pinto da Costa. Era treinador de boxe do clube e reuniu os seus rapazes para patrulharem a sala, e o certo é que com alguns murros e cabeçadas acabou por conquistar o lugar de chefe da segurança de Américo de Sá.
Pinto da Costa temia-o, porque não era um brigão vulgar e muito menos um marginal estúpido e incompetente. Reinaldo Teles tinha um espírito e uma personalidade muito idênticos aos de PC. Dava as ordens para descascar á fartazana e depois surgia como o apaziguador, o bom rapaz que nada tinha a ver com aquela violência. PC detestava-o, mas viu nele a solução para o futuro.
Reinaldo Teles era um ás a esgrimir os punhos, sabia avaliar com grande exactidão a capacidade dos seus adversários, e quando não os podia vencer trazia-os para junto de si. Um anjo, este rapaz que veio bastante jovem de uma aldeia transmontana para servir numa tasca de um tio. O estabelecimento estava aberto toda a noite, numa altura em que ainda existiam poucas discotecas. E as que funcionavam em pleno estavam viradas para o alterno e a prostituição. Mas R. Teles sabia que «putas e vinho verde» só combinam nas horas e nos locais certos. Havia que tratar da vidinha. Ajudava o seu tio pela madrugada dentro e vivia com entusiasmo as cenas de pancadaria entre azeiteiros, putas e marginais. O seu sonho era um dia vir a ser como eles. Homens valentes, com charme, e mulheres tratadas a pontapé a levarem-lhes o apuro da noite e o que até tinham roubado ao prazer. Sobre as delícias do amor, Reinaldo propagandeava dotes extraordinários, como fruto da leitura de um livrinho que comprara na Feira de Vandoma, uma obra cujo título tinha algo a ver com cama (obviamente) e que ensinava a combinar o beijo inclinado com o beijo pressionado. Essa era a matéria que Reinaldo dominava perfeitamente, como já se disse, com destaque para a arte de beijar.
Mas ainda estava longe de ser o rei na noite, sendo por norma acordado por mais um pedido da Bety ou da Lady, pois as putas por aqueles lados tinham todas nomes ingleses...
- Ó miúdo, serve-me aí uma sande de fígado com molho e cebola e um copo desse verde rasca que o teu tio tem aí!
Reinaldo Teles não se deixava comover. Afinal, eram putas. Tinham de ser tratadas assim. Enrugando a face, com os cantos da boca a quebrarem para baixo, fazia inchar o peito, punha-se em bicos de pés na tentativa de imitar os chulos e atirava com o prato da sande e o copo para a frente da mulher enquanto pensava: «Ainda vais trabalhar para mim». Foi então que um indivíduo com cara de rato, esquelético e de cabelo oleoso, se foi encostando á prostituta que Reinaldo servia e, com uma habilidade nata, meteu os garfos na carteira e roubou-lhe o porta-moedas. Reinaldo, que estava por detrás do balcão a retirar da montra de vidro um naco de polvo envolto em cebola, viu a cena e não perdeu a sua oportunidade de brilhar. Saiu do balcão e, com determinação, agarrou o carteirista e evitou que a Alzira, mais conhecida por Lady, ficasse sem os poucos tostões que o seu chulo lhe deixou.
Apercebendo-se de toda a cena, a Alzira levantou a mão e deu um soco no carteirista enquanto lhe dizia:
- Ah, meu filho da puta de choringa!
Sem tempo para pensar, Reinaldo Teles nem sequer hesitou quando se apercebeu que o carteirista ia responder á agressão. Formando um salto, deu uma cabeçada seguida de uma esquerda no choringa e este esparramou-se no chão sem vontade de se levantar. Quando o pôde fazer, nem sequer olhou para trás, deitando a fugir pela rua abaixo.
Os presentes fartaram-se de gabar Reinaldo, não só pela sua coragem como também por aquela esquerda indomável. A Alzira esqueceu-se de que tinha sido vítima de roubo e começou a medir o miúdo de alto a baixo com um sorriso comprometedor e, olhando por cima do ombro, disse-lhe quase num sussurro:
- Hoje tens direito a uma de graça!
- Com direito a beijo pressionado?- quis logo saber Reinaldo.
Que sim, disse ela. Reinaldo Teles não cabia em si. Puxou do pente que trazia no bolso de trás das calças, passou-o pelos cabelos e não deixou ninguém perceber que ainda era virgem. Pegou no resto do vinho que sobrou no copo da Alzira e emborcou-o de uma golada enquanto lhe dizia:
- Estou-te com uma sede!
Quando fechou a tasca, lá estava a Lady á sua espera para uma madrugada de amor.
Mas estava, ainda, Reinaldo com a chave metida na porta, e já o chulo da Alzira lhe tocava no ombro.
- Onde pensas que vais meu filho. O estabelecimento já fechou. Se queres desenferrujar o prego, espera para amanhã e não te esqueças de trazes trocado.
Reinaldo Teles ficou fora de si. Já estava a pensar com os tomates, e aquele gajo não lhe podia vir estragar a festa. Olhou de alto a baixo o chulo. Fixou-o bem nos olhos e achou que lhe podia dar uma tareia. A sua célebre esquerda saltou como um gancho e abateu-se nos queixos do chulo. Ainda este não se tinha recomposto e já levava um meia dúzia de socos, caindo KO no passeio.
Numa só noite, Reinaldo tinha abatido dois adversários. Alzira não hesitou. Estava cheia daquele chulo, e Reinaldo serio o seu novo amante. Meteu-lhe o braço e, com firmeza, levou-o até ao seu quarto alugado, por trás da Igreja da Trindade. Por coincidência ou não, os sinos tocaram a assinalar as cinco da matina e uma gata berrou de cio.
Reinaldo estava eufórico e, depois de ter descascado em dois duros da noite, não podia de forma alguma deixar perceber que aquela era a sua primeira noite de amor. As suas calças de bombazina preta começaram a ser afagadas por Alzira enquanto ela se despia.
Ao ver o seu par de mamas, Reinaldo não se aguentou mais e teve uma ejaculação.
Lady sentiu as calças humedecidas.
- Já te vieste?
Reinaldo, sem mostrar atrapalhação por aquele percalço, ensaiou uma vez mais a pose de durão.
- Isto é só uma amostra. Vê se te preparas depressa.
E em que pressinha se foi a virgindade de Reinaldo Teles.
Alzira ficou encantada com toda aquela fogosidade e, mostrando-se submissa, pediu com um certo carinho:
- A partir de hoje vais ser o meu chulo?
Reinaldo sorriu, enquanto puxava as calças para a cintura e apertava o cinto.
- Depois da sova que deu ao teu chulo, achas que ele teria coragem de aparecer? O teu homem a partir de hoje, claro que sou eu.
Mas para que essa conquista ganhasse forma, havia muitas lutas para vencer. Os pretendentes faziam fila porque o negócio estava mau e havia de aparecer um valentão a conquistar os seus direitos da mesma forma que o fez Reinaldo. Alzira gostava do miúdo, era forte e atrevido, mas para ficar com ele tinha de pensar numa forma de o proteger. Reinaldo tinha punhos, mas faltava-lhe a experiência. De súbito, veio a solução. Ela tinha um cliente que era treinador de boxe do maior clube da cidade (Porto) e ia-lhe apresentar Reinaldo Teles para o rapaz poder ir lá fazer uns treinos.
Uma semana depois, o tal treinador de boxe disse a Alzira que Reinaldo tinha futuro.
A partir daí, quando as coisas aqueciam no «Ginginha», a tasca do seu tio, R. Teles fazia uns treinos extra, passando a ser conhecido e respeitado. Depois de fechar a tasca, aproveitava a boleia de um amigo e ia ter com a Alzira, que atacava em Santos Pousada.
Trazia o apuro e a rapariga. Os dois estavam apaixonados. O beijo pressionado passava à história.
Reinaldo começou a somar êxitos no boxe e acabou por deixar o emprego na tasca do seu tio para se colocar como segurança e porteiro numa casa de alternos. Foi aí que conheceu a Luísa.
Mas um dia, Alzira descobriu tudo, entrou pela boite dentro, localizou a Luísa, que bebia uma garrafa de champanhe com um cliente enquanto este a beijava no pescoço, pegou-lhe pelos cabelos, atirou-a por cima da mesa e armou por ali uma algazarra tremenda.
Reinaldo Teles tentou acalmar as coisas. Não podia perder o emprego e lá convenceu Alzira a ir-se embora, não sem antes esta prometer que matava a Luísa se ela continuasse atrás do homem dela.
Reinaldo Teles tinha-se tornado num dos chulos mais importantes da cidade e, com a ajuda da Luísa, acabou por comprar o seu próprio estabelecimento. O rapaz tinha jeito para o negócio, e a Luísa tinha uma perspicácia tremenda para escolher as melhores putas.
Ambicioso, inteligente, hipócrita e já com algum poder económico, Reinaldo Teles tinha apenas mais um sonho: ser campeão nacional de boxe. Ele era bom de punhos, mas havia outros melhores.
Com algum sacrifício e habilidade, conseguiu chegar á fase que lhe permitiu disputar o título. O seu adversário era poderoso e Teles não se podia arriscar a deixar fugir o seu sonho. Sempre inclinado para negócios marginais, colocou logo em prática um plano diabólico. Ele sabia que no boxe profissional a corrupção por parte de grupos marginais era uma prática constante e quase normalizada, e num ápice resolveu o seu problema. Contactou o seu adversário, negociou a vitória no terceiro "round" e um KO mal disfarçado deu-lhe a oportunidade de saltar no ringue elevando as luvas em sinal de vitória.
Era importante para o seu negócio que os jornais noticiassem no dia seguinte que ele era o novo campeão nacional de boxe. Aquele título significava respeito e medo. Os factores mais importantes para quem quer gerir com tranquilidade uma casa de alternos e de prostituição.
Este fora o seu primeiro acto no mundo da corrupção, e Teles ficou fascinado com o poder do dinheiro. Afinal, ele tinha feito um investimento altamente rentável. Pagou para conquistar o título, realizou o seu sonho e duplicou a facturação no seu estabelecimento. Ninguém se arriscava a criar conflitos na sua área de alternos e muito menos a deixar contas penduradas. Os punhos de um campeão eram sempre temidos.

quinta-feira, outubro 26, 2006

Golpe de Estádio #05: Capítulo II (Ascensão de um Seminarista)

Há 20 anos...
O Verão estava insuportável. O calor sufocava, e o futebol preparava-se para iniciar mais uma época. Os jogadores, regressados de férias, vinham com pouca vontade de trabalhar.

Os dirigentes estavam mais atarefados do que nunca. Eram as contratações, o estudo das novas directrizes e a organização dos respectivos departamentos o que mais os preocupava. Mas as atenções estavam viradas para o maior clube da cidade (Porto). Anunciavam-se grandes transformações para um novo mandato de Américo de Sá, um dirigente de corpo inteiro cuja figura e postura se assemelhava á de um aristocrata. Educado, afável, mas um tanto pretensioso, seguia uma linha directiva com mais de trinta anos. Nos últimos tempos, as vitórias começavam a sorrir e até veio um título já esperado há muitos anos. O clube estava a ganhar uma nova estrutura organizativa, fruto da revolução política que anos antes tinha acontecido e o aproveitamento correcto das linhas de acção traçadas pelos partidos apontavam para a regionalização e a descentralização do poder.
Alguns homens do Norte tinham ganho força nos mecanismos estatais e tentavam implantar na sua região uma retaguarda de pressão para combater a tendência de esquerda que vinha da região sul. O momento foi soberbamente aproveitado em toda a sua extensão e teve como principal mentor José Maria Pedroto, o técnico mais conceituado do futebol português. O homem já tinha revelado, mesmo como jogador, uma inteligência invulgar e, logo que tomou conta do clube do seu coração, procurou colocar um plano que noutros tempos se tinha mostrado de difícil execução. Para o acompanhar, escolheu elementos que já antes se tinham feito notar pela sua forte dinâmica. O seu mais directo colaborador era Pinto da Costa, o homem que chefiava o departamento e comparticipava em toda a estratégia por ele montada. Pinto da Costa movia-se habilmente pelos corredores do poder, possuía uma memória invulgar, e escrúpulos era coisa que se não lhe conhecia. Hábil na utilização do discurso, atacava as suas vítimas com uma certa ironia, mas não tinha contemplações para quem se lhe atravessasse no caminho.
Esta dupla era imbatível, mas perigosa. Ambos já tinham mostrado a sua intuição e poder de manobra quando conseguiram ludibriar o poder que outrora vinha da capital e dos clubes que normalmente dividiam entre si os prazeres da vitória. O certo é que do Norte surgia um intruso a querer também saborear esses incomensuráveis prazeres da conquista. Aquele título, ganho depois de tantos anos de luta contra as mais miseráveis injustiças, era uma lança cravada em terras de Mouros. Um verdadeiro desafio àqueles que usavam e abusavam do poder que possuíam. Mais do que tudo, tinha sido uma vitória do Norte. Os populares rejubilavam com o feito, mesmo a gostarem de outras cores clubísticas. Pedroto surgiu como um herói e passou a ser a bandeira dos humilhados e oprimidos. Lenine não faria melhor.
Mas tanto Pedroto como Pinto da Costa sabiam o perigo que isso representava e prepararam-se para enfrentar novos ataques. Era necessário ser duro na acção e lutar sem contemplações contra o inimigo, mas o presidente do clube e os seus pares não possuíam a estaleca necessária para os acompanhar nesta corrida louca contra a hegemonia da capital. Américo de Sá mais parecia um aristocrata e no futebol os punhos de renda estavam a passar de moda.
- Com o Sá, não vamos a lado nenhum!- choramingou PC.
-Ir, vamos. Mas quando atravessamos a Ponte da Arrábida já estamos a perder!- atirou Pedroto, sempre mais pragmático e mostrando mais uma vez que era um homem que anda sempre um passo ou dois á frente dos restantes.
Pinto da Costa, com a sua cara de bebé chorão e os óculos descaídos sobre o nariz, sorriu e tentou imaginar a melhor forma de dar a volta ao problema. Havia que contar com duas situações, antes do mais. Pedroto era agressivo, competente e justo. Lutava como ninguém e por aquilo em que acreditava e não se deixava "comer por lorpa", mas preservava os seus amigos e era incapaz de trair quem se envolvesse com ele na acção.

Tinha de se arranjar uma solução ajustada ao prestígio de Américo de Sá.
Todas as noites, Pedroto gostava de um joguinho e cartas, e o seu jogo predilecto era a "ricardina". O local de encontro e de jogo era a tasca do Ilídio Pinto, também proprietário da mercearia Petúlia. Nas catacumbas, uma nova fé clubística crescia, mas esta estava pronta para soltar os leões sobre o dono do Circo...
Depois de uns copos e de uma conversa animada sobre futebol, a noite acabava sempre na cave da mercearia com o tal jogo da "ricardina". Ilídio Pinto sofria como ninguém os problemas do clube. O seu maior sonho era ser um dia director do departamento de futebol, mas havia muitos mais candidatos para o lugar, e ninguém o levava a sério. E, que se soubesse, o cargo não era prémio que saísse como brinde do bolo-rei. Mas a inteligência era um dote que não contemplava o Ilídio. Lá que era um homem astuto, era. E lá que estava cheio de dinheiro, disso também ninguém duvidava. E como estava sempre de bolsa aberta para ir em socorro dos problemas do clube, havia que deixá-lo pensar que o sonho um dia se iria realizar. A sua riqueza tinha como base muita poupança e o segredo roubado ao seu antigo patrão da receita da broa de Avintes.
Em poucos anos, apesar de ter a sua mercearia noutra zona, transformou-se no "Rei da Broa de Avintes" e as vendas foram de vento em popa. Os negócios estavam maus, a economia fraca, o País vivia tempos difíceis, e a broa de Avintes sempre era barata e enchia os foles do estômago dos menos favorecidos. E a bolsa do Ilídio.
A noite estava quente, e o ambiente alegre, mas PC chegou de semblante carregado e fez um sinal de cumplicidade a Pedroto:
- Porque é que está com um ar tão «saturno»?
Pedroto quase se desfazia numa gargalhada, mas Pinto da Costa, já habituado ás bacoradas do Ilídio, respondeu com a ironia que lhe era habitual:
- É do tempo, e os astros não ajudam.

Depois de ter dado uma palmada nas costas do Ilídio, adivinhando-lhe as intenções, foi-lhe dizendo:
- Vamos a uma partidinha!
O Ilídio não deixou de mostrar um sorriso rasgado de orelha a orelha. Era daquilo que ele mais gostava. Não se importava de perder todas as noites. A broa de Avintes dava para tudo. O importante era estar com os heróis que fizeram do seu clube campeão. Mandou fechar a loja, meteu o apuro do dia no bolso e foi de imediato buscar as cartas. PC aproveitou a ausência e contou a sua estratégia a Pedroto.
- A melhor forma de conseguirmos levar em frente o nosso plano, é convencermos o Américo de Sá de que o futebol no clube tem de ser totalmente autónomo. Ou seja ele gere o clube e nós tomamos conta do futebol.
- Por acaso não lhe fica nada mal o papel de corta-fitas. Como é que vamos fazer isso? - perguntou PC largando um sorriso cúmplice.
- Ele é capaz de não aceitar essa situação com tanta facilidade.
Entretanto , o Ilídio chegou com o baralho de cartas, e ouvindo as últimas frases, perguntou com um ar de quem não está a entender nada.
- O Américo Tomás vai voltar?
Pedroto piscou o olho a Pinto da Costa e mudou o tema á conversa.
- PC, é desta que vais jogar a «ricardina»?
- Bem sabes que jogo de cartas não é comigo. Os meus jogos são outros.

Chegaram outros convidados para uma partidinha e começou o saque ao Ilídio. Irritado com tanta falta de sorte, o dono da mercearia só via na sua frente o desfiar dos naipes que lhe tinham tocado. Pinto da Costa assistia impávido e sereno ao baralhar das cartas e á forma como eram distribuídas. E pensou: «Um dia serei eu a distribuir o jogo». Algo aborrecido, levantou-se e aproveitando o entusiasmo do Ilídio, subiu á mercearia e começou a retirar alguns chocolates das prateleiras. Voltou a descer e, com o à-vontade que lhe era peculiar, distribuiu algumas tabletes pelos jogadores. O Ilídio também se serviu, sem dar conta que as mesmas lhe foram roubadas, tal o seu entusiasmo pelo jogo.
Pedroto riu-se, e os presentes também não se contiveram. O Ilídio parece ter acordado e, dando uma dentada no chocolate, pensou em voz alta:
- Vocês estão a rir-se muito, devem ter bom jogo. Mas não faz mal, a minha sorte também há-de chegar.

A sorte só lhe chegou no dia seguinte com a venda de mais broa de Avintes.
No final do joguinho de cartas, Pedroto convidou PC para uns fadinhos. Sempre era um sítio recatado para uma conversa a dois. Já só faltava um dia para que a equipa de futebol se apresentasse e nada estava definido em relação à chefia do departamento de futebol.
- O Américo de Sá já me convidou para continuar, mas temos de ter mais poder para fazer frente aos mouros.

Pedroto era um homem de soluções rápidas e não esteve com meias medidas, lançando a sua proposta a PC.
- Amanhã vais falar com o homem e dizes-lhe que aceitas continuar no cargo, mas com algumas condições, e aproveitas para expor o teu plano. Não tenhas problemas, porque o título ganho deu-nos uma tal força, que é difícil haver gente com coragem para nos derrubar.
Confiante nas palavras do "mestre", PC marcou encontro com Américo de Sá e colocou-o ao corrente do seu plano. Américo de Sá mostrou-se desconfiado e delicadamente disse "talvez sim", o que bem podia ser traduzido por "certamente que não". E para que Pinto da Costa não ficasse com dúvidas, o presidente fez mesmo questão de precisar:
- Mas, para já, se quer ficar com o departamento de futebol, fica, embora nas condições anteriores.

PC não estava a contar com aquela resposta e ficou lívido de raiva. Bateu com a porta e saiu, pensando na velha máxima de Júlio César que era para si o referencial da vida: "Antes ser o primeiro numa aldeia que ser o segundo em Roma".
Pinto da Costa telefonou de imediato a Pedroto e colocou-o ao corrente da situação.
- Temos que nos encontrar com urgência para sabermos o que vamos fazer amanhã.
Pedroto tentou colocar alguma água na fervura e tranquilizou PC.
- Vem já a minha casa, para elaborarmos a estratégia para amanhã.

Em pouco tempo tudo ficou gizado. Os tempos do PREC ainda estavam bem vivos, e se o Américo de Sá se julgava importante, iria ter de se vergar ao poder popular.
Dizia PC:
- Tem calma. Essas coisas não se tratam dessa forma. Em primeiro lugar vamos fazer um comunicado e amanhã revolucionamos isto tudo.
Nessa noite voltaram a encontrar-se na Petúlia para afinarem a estratégia. Mas como não se sabia muito bem no que é que aquilo tudo ia resultar, era melhor colocarem Ilídio Pinto no plano, estabeleceu PC. Pedroto reagiu pela negativa.

- Deixa o Ilídio em paz, porque ele ainda é capaz de nos estragar a estratégia.
- Estás doido. Vamos só dar-lhe um cheirinho. Nunca se sabe se vamos necessitar de dinheiro, e se for caso disso, onde é que o vamos buscar?
Pedroto hesitou, mas acabou por concordar. Convidaram o Ilídio para a reunião e contaram-lhe apenas algumas peripécias do plano. O Ilídio revelou-se eufórico, como quando lhe saía bom jogo. Era mesmo aquilo que ele queria. O Américo de Sá não ia aguentar este ataque e abandonava o clube. O Pinto da Costa passava a presidente, e ele realizava o seu velho sonho: tomar conta do departamento de futebol.
O Ilídio até foi mais cedo para a cama, depois de ter dito ao Pedroto e ao PC que podiam contar com tudo o que necessitassem. Mesmo dinheiro, a quantia que fosse necessária. Logo que chegou a casa, não resistiu. Tirou a bata de trabalho e foi ao roupeiro escolher o seu melhor fato. Vestiu-o, colocou uma gravata, foi a uma pequena gaveta da cómoda e retirou uma braçadeira com uma inscrição bordada a branco: «delegado ao jogo». Passeou-se um pouco no quarto de cabeça erguida e começou a gritar para a mulher, que já estava a dormir:
- Levanta-te que isso não é nada. Vai à esquerda. Vai lá, corre. Corta, passa, chuta que é golo!
A mulher acordou estremunhada e, vendo o Ilídio naqueles propósitos, logo pensou: «Ai que o meu Ilídio ficou maluquinho!»
- Mulher, estás a ver um futuro delegado ao jogo! Amanhã vai haver um golpe de estádio e ninguém mais nos vai poder parar.
A Dona Virgínia, sem perceber o que se estava a passar, pensou: «E mais uma das maluquices do meu marido». E virou-se para o outro lado, voltando a adormecer, pois, de manhã, bem cedinho, tinha que estar no seu posto a fabricar a broinha.
Pedroto foi o primeiro a entrar no estádio e logo que os jogadores chegaram fez uma reunião e contou-lhes o que se estava a passar.
- Rapazes, se queremos continuar a ganhar, a conquistar títulos e a criar fama, temos de manter o grupo unido. Fomos nós que conseguimos realizar o sonho de conquista do título e não queremos ficar por aqui. Tenho a informar-vos que o nosso presidente, Américo de Sá, excluiu o Pinto da Costa do departamento de futebol e, sendo assim, não trabalho com mais ninguém. Fora a ditadura e os incompetentes. Unidos ninguém nos vence.
Um dos jogadores, atento e entusiasmado com o discurso, ainda esboçou a palavra de ordem:
- Os jogadores unidos jamais serão...

Atento, Pedroto travou o entusiasmo do jogador.
- Alto aí! Por esse caminho não, porque às tantas ainda dizem que somos comunistas, e isto não é um golpe de Estado. Isto é apenas um golpe de estádio.
O Ilídio não perdeu pitada do que estava a acontecer. Entusiasmado com a possibilidade de poder realizar o seu velho sonho de chefiar o departamento de futebol, subiu a um banco e apoiou Pedroto:
- É isso mesmo. Isto não é um golpe de Estado, é um golpe de estádio.

Pedroto retirou o chapéu que lhe encobria o «capachinho», fez deslizar os dedos pelos poucos cabelos de que ainda era proprietário, enquanto pensava na melhor forma de fazer sair o Ilídio, para que a bronca não fosse ainda mais longe. Pediu então a todos os presentes:
- Gostava de ficar agora sozinho com os jogadores e a equipa técnica. Ó António, pede aos restantes que saiam!

Novamente na posse do comando da situação, Pedroto explanou as linhas mestras do seu plano, como se estivesse apenas a dar a táctica para o próximo jogo:
- O Américo de Sá não tem o direito de travar a caminhada gloriosa do nosso clube.
Nós assumimos uma grande responsabilidade para com os nossos associados e não podemos desiludi-los. Neste momento, não há outra alternativa. Ou ele ou nós e nós somos a verdadeira glória do clube. Somos os únicos capazes de lutar contra os mouros, de os derrotar novamente, como fez D. Afonso Henriques.

O ambiente voltou a aquecer, e o entusiasmo da maior parte dos jogadores tomou conta da situação. Discutiu-se a melhor forma de enfrentar o problema e ficou acordado escrever-se um comunicado para entregar á Imprensa, dando-lhes conta da situação. Um dos jogadores ainda disse:
- Quem vai buscar uma folha de papel?
Mas Pedroto apressou-se a acrescentar:
- Não vale e pena. Dormi toda a noite sobre o assunto e por acaso até já trago aqui o comunicado feito.

Alguns jogadores ficaram desconfiados. Aquilo mais parecia um golpe de uma organização comunista.
Trabalhadores a quererem tomar conta das empresas tem dado mau resultado. Resolveram logo pôr em causa aquela acção.
Houve alguma discussão no balneário e, como a maioria estava de acordo, resolveram encostar a direcção á parede. Ou aceitavam as condições de Pinto da Costa, ou vamos todos embora.
Mas o tiro saiu-lhes pela culatra. Américo de Sá não se deixou abater pela intimidação e não aceitou as exigências. O escândalo rebentou.
Só quatro jogadores ficaram de fora da situação e alinharam com Américo de Sá, os outros foram para a mercearia do Ilídio Pinto.
Os grupos de pessoas com influência no clube dividiu-se. Se era verdade que tanto Pedroto como Pinto da Costa tinham feito uma autêntica revolução no futebol quando ganharam o título, também não era menos verdade que não estava certo que se aproveitassem da situação para assaltar o poder. Moviam-se nos bastidores os mais variados tipos de influências, porque acima de tudo estavam os mais elementares interesses do clube. Os prejuízos podiam ser desastrosos, estavam a perder-se dias de preparação, o campeonato estava á porta e a equipa iria ressentir-se disso se o braço de ferro não terminasse. Sob o comando de um preparador físico, os jogadores treinavam-se nas ruas da cidade e no final cada um ia tomar banho a sua casa. Era o descalabro. Nunca antes se tinha assistido a coisa igual. Estava na hora de o Ilídio entrar em cena. Reuniu-se com Pedroto e PC e perguntoulhe o que é que podia fazer para ajudar. Sentiu-se de imediato um brilho nos olhos de PC. Estava ali a resolução para parte do problema.
- Precisamos de dinheiro para pagar o estágio aos jogadores. Vamos mandá-los para onde ninguém os encontre. Assim, eles podem trabalhar em paz, até que tudo isto se resolva. Temos também de lhes garantir os vencimentos no final do mês. Ilídio, você arranja dinheiro para fazer face a estas despesas?
O Ilídio gostava de se sentir útil. Era ele que ia resolver o problema. A carteira era a sua divisa e colocou-a ao dispor da situação. Aquele estava a ser um dia bom, pois já vendera 500 broas.
Os jogadores hospedaram-se numa estalagem junto ao pinhal e tudo se complicou ainda mais. Toda a gente queria saber onde estavam os craques. A imprensa procurava e não encontrava. Criaram-se grupos de espiões de parte a parte. A pressão aumentava, e o Ilídio tinha de retirar os seus dividendos. A sua oportunidade não tardava, mas toda a gente tinha de ficar a saber que era ele que estava a financiar a situação. Mandou chamar um jornalista amigo e confessou-lhe:
- Fui eu que dei o dinheiro para o estágio . Eles estão.. bzzzzzzzzzzz

No outro dia, os jogadores voltaram a ser «assaltados pela malta dos jornais. Novo escândalo. Américo de Sá não dava sinais de fraqueza. Resistiu a todos os tipos de pressão. Foram reuniões, mais reuniões e assembleias gerais. Mas o presidente e os seus homens não recuaram um milímetro que fosse.
Vencidos pelo tempo e pela persistência, todos os jogadores recuaram. Todos...menos um: António Oliveira.
Pedroto e Pinto da Costa ficaram sozinhos. Américo de Sá tinha vencido. Contratou um novo treinador e ofereceu a chefia do departamento de futebol a um homem da sua confiança.
O Ilídio é que não perdeu tempo. Quando viu as coisas mal paradas, resolveu virar-se para o outro lado. Telefonou ao Américo de Sá e defendeu-se:
- Olhe que aquilo do dinheiro do estágio não fui eu que dei. É tudo mentira. O presidente já sabe que pode contar comigo. Se for necessário contratar jogadores e um novo treinador, já sabe que não há problema nenhum!
Ninguém tinha dúvidas de que iria ser necessário muito dinheiro, e no clube não abundavam os mecenas. Numa situação destas, o Ilídio podia vir a ser muito útil.
Pinto da Costa, Pedroto e o «capitão» de equipa, António Oliveira, mantiveram as duas posições. Tinham sido derrotados, mas não havia nada a uni-los. Cada um que se safasse da forma que lhe desse mais jeito.
Pedroto, sem abandonar a mania da conquista da capital aos Mouros, instalou-se na terra de D. Afonso Henriques.
- A luta continua. Vai ser aqui que me vou inspirar para voltar a conquistar o poder.
Levou com ele o António, seu adjunto. O preparador físico também tinha desertado e procurado encosto no grupo de Américo de Sá. Só mesmo António Oliveira resistiu, preferindo o desemprego á humilhação de voltar atrás. Tinha assumido uma posição e mantinha-a, mesmo que agora pensasse que tudo estava errado.
- Vamos com calma. Roma e Penafiel não se fizeram num dia.
Dito isto, virou á esquerda, travou a fundo e abriu a porta a uma miúda que por ali estava encostada a um candeeiro.

terça-feira, outubro 24, 2006

Golpe de Estádio #04: Capítulo I (Voz de Prisão)

José Guímaro estava no centro do estádio. Apitava. E o povo aplaudia. Os jogadores choravam de emoção. As principais estações de TV tinham para ali destacado os seus melhores repórteres, grande parte deles ainda imberbe. E ele, no centro do terreno, apitava, o povo aplaudia, os jogadores choravam e as televisões filmavam sem pausas para a publicidade. Disputava-se a final do campeonato do mundo de futebol. E o melhor em campo só podia ser ele, o árbitro. Ele, José Guímaro.
Trrrrrriiiiiiiiim! Não, não era o apito. Era a campainha da porta. O povo já não aplaudia, os jogadores não choravam e as TV´s não gravavam. Ao acordar, num sobressalto, José não conseguiu mesmo evitar o penico, que se derramou sobre as pilosidades generosas da carpete comprada há duas semanas na Feira de Espinho. O dia começava mal para José e, que soubesse, não se previa nenhuma final mundial.
No quarto, ainda na penumbra, um peixe vermelho nadava no aquário e um Buda jazia numa floresta de bibelôs. Num canto, as pantufas azuis de José brilhavam, com as lantejoulas a reflectirem o emblema do clube que mais ganhos lhe tinha dado.

- Quem é? - perguntou, já na sala, agarrado a um galgo de louça que tinha comprado há um ano numa viagem a Barcelos.
- Polícia! Judite! - ouviu do outro lado. José beliscou-se. Seria um pesadelo? Não era. O relógio do vídeo piscava, anunciando que faltavam cinco minutos para as sete horas.
- Abra. Temos um mandado de busca! - voltou a ouvir.
- Provavelmente, bebi de mais a noite passada - ainda pensou José. - Polícia? Não pode ser, eles disseram-me que...

A porta caiu ao segundo pontapé, abrindo uma série de comentários que ainda hoje ninguém sabe a quem atribuir.
- Mas o que é isto?
- Que cheiro...
- Que fazem aqui estes homens, Zé?
- Estou feito...
- Calma, Zé, isto só pode ser brincadeira...
- Brincadeira? Só se for de mau gosto.
- Meus senhores, isto é muito sério.
- Mas eu estou inocente...
- É o que vamos ver...
Aqui, as luzes acenderam-se. E também se fez luz na cabeça de José. Alguém o denunciara à polícia. E foi então que desmaiou, urinando pelas pernas abaixo. Lá fora, na pacata aldeia de José, Rex, o cão de estimação de toda a gente, morria de ataque cardíaco depois de mais uma aventura com «Lacie». Na loja do Senhor Gomes bebiam-se os primeiros bagaços do dia, e um pouco por todo o País dormiam em paz os senhores do futebol. Mas naquela casa, naquela modesta casa, as sombras agitavam-se na luz. E o cheiro da urina impregnava o ambiente. José arribou um pouco mas continuava no mesmo pesadelo. Voltou a desmaiar e cagou-se. Um polícia vomitou e o outro pediu uma cerveja. Iniciava-se a investigação.
Quando bebia o segundo gole de cerveja, o agente Marques descobriu a garrafa de leite. Que não tinha leite, mas dólares. E no meio dos dólares, lá estava A PROVA. Um cheque!
Guímaro voltou a recuperar os sentidos. Mais calmo, mas sempre a cheirar mal, começou a responder às perguntas dos polícias sentado num sofá de pele de camelo que comprara em Marraquexe, ao que disse, embora desde logo um dos agentes desconfiasse que tal mastodonte tivesse viajado mais de mil quilómetros até ali estacionar.
- De quem é este cheque? - perguntou, tentando ser duro, um dos agentes, o Pires, cuja maior ambição era ser plantador de Kiwis na costa alentejana.
Guímaro hesitou, pigarreou e, vendo que não podia fugir da questão, acabou por dizer:
- É de um dirigente desportivo e foi para comprar leite.
- Leite?! - reagiu o agente Marques, que também era bombeiro voluntário nas férias grandes, em Bemposta.
Dali já não saía mais nada. E o cheiro!... Por isso, os agentes tomaram uma decisão:
- Vá lavar-se que está preso!
Enquanto Guímaro se vestia, Pires e Marques aproveitaram para lhe revistar o automóvel, um «Volvo» topo de gama. No porta-luvas, encontraram dois bilhetes de avião para Madrid e uma miniatura da Nossa Senhora de Fátima. No banco traseiro, os jornais desportivos, espalhados, não deixavam dúvidas: o nível técnico de Guímaro encontrava-se algures entre a bosta de vaca e o vomitado de canguru.

Mas nem era bom falar nessas coisas, pois os agentes da PJ ainda estavam enjoados com o cheiro que encontraram dentro da modesta vivenda de José. Antes de partir para Lisboa, Marques quis voltar ao quarto de Guímaro. Debaixo do colchão, encontrou duas promissórias de cinco e doze mil contos. O importante era o cheque. Podia ser mesmo mate. Mas, apesar da anestesia mictórica e afins, o faro policial dos agentes ainda conseguiu percepcionar uma agenda sob o telefone.
- Porque é que tem aqui o nome do Senhor Adriano Pinto? - perguntou o Pires.
Guímaro apertou o nó da gravata e, sabendo que não podia encobrir o nome de um dos grandes barões do futebol, respondeu um pouco envergonhado:
- Esse número é da minha mulher...
- A sua mulher tem negócios com o Senhor Pinto?
- Não é bem isso - disse Guímaro -, acontece simplesmente que eles são muito amigos, e como eu apito sempre jogos longe de casa, o Senhor Pinto faz o favor de passear ao domingo com a minha mulher. É muito simpático da parte dele.

A mulher de Guímaro é que continuava a não falar. A filha chorava num canto da sala. E assim partiram para a capital.
O dia nascia quente. Nos campos, os homens iniciavam a faina, e um «TIR» punha as tripas do Rex de fora, fazendo rolar a sua cabeça para a valeta, onde ficou de olhos abertos, como se estivesse atento à partida de Guímaro para Lisboa, algemado, no banco de trás de um reles Fiat «Tipo» apenas de três portas e com o escape meio roto. Ao mesmo tempo, outras brigadas da «Judite» atacavam noutros pontos do País. A «Operação Golpe de Estádio» estava finalmente em marcha.
Na casa de Reinaldo Teles, na cidade do Porto, este conhecido dirigente preparava-se para se deitar quando a campainha soou. Eram sensivelmente 7 horas, e a madrugada já se apresentava quente.
- Polícia!
Reinaldo, empresário da noite, ex-campeão de boxe, como lá mais para diante se verá, fez a sua melhor pose para enfrentar os agentes, tentando adivinhar o que é que se estava a passar. Num primeiro momento, pensou que tinha sido traído por uma das suas putas e talvez por isso é que exclamou...
- Puta de vida!
A polícia entrou e inquiriu:
- Onde guarda os documentos?
- Que documentos?
- Documentos.
Reinaldo quis saber mais.
- Isso tem a ver com droga?
Irritado, Borges, o agente 23 da 2ª secção, abanou a cabeça.
- Não, se tivesse a ver com droga não tínhamos tocado à porta. E agora deixe-se de conversa e mostre-nos os documentos.
- Droga de vida! - voltou Reinaldo a descair-se. Reinaldo mostrou o passaporte e o bilhete de identidade.

- Já visitei 24 países! - disse, sem que ninguém registasse o menor espanto.
- Já fui à Letónia! - insistiu.
- Queremos mais! - gritou o Borges com aquele olhar parado que a malta lá na «Judite» tentava sempre evitar, pois era sinal de que o dia não estava a correr bem ao agente 23. Nessas ocasiões, Agostinho, o seu parceiro contava até 24.

Reinaldo pressentiu o perigo e abriu o cofre. E os agentes foram rápidos na busca.
- Quem lhe deu este cheque? - quis saber o Borges.
Reinaldo quase foi fulminado pela pergunta, mas aguentou o «murro», pois era homem para não se ir abaixo facilmente e não queria deixar ficar mal o patrão. Reinaldo o que queria era morrer. Pensou que tinha terminado ali a sua fulgurante carreira de dirigente desportivo. Num curto lapso de tempo, recordou a sua ascensão no clube que sempre amou: chulo, pugilista, seccionista, segurança, amigo pessoal do patrão, seu confidente e, finalmente, único homem em quem ele confiava.

- E eu a pensar que um dia seria tão famoso como a Carmen Miranda - disse baixinho.
A documentação encontrada foi considerada insuficiente para determinar a prisão imediata de Reinaldo Teles. Embora relutantes, os agentes retiraram-se, não sem antes admirarem uma reprodução de «Mona Lisa» que lhes sorria no corredor de acesso à porta principal da casa de Reinaldo. Reinaldo estava aliviado e correu atrás dos agentes.
- Senhor Borges, não quer um café.
- Não senhor, prefiro um poema - e bateu com a porta na cara de Reinaldo, que estava longe de pensar que o agente 23 ia aos jogos de futebol para se inspirar. O estádio para ele seria sempre «um pequeno búzio onde murmura o mundo», como um dia escreveu o poeta Álvaro Magalhães. «Mas isso é muito areia para a pick-up do Reinaldo», pensou, enquanto entrava no seu automóvel com aquele olhar parado muito especial que levou o seu colega a preferir regressar à sede montado num velho autocarro: o «78».

Na sua casa, ainda descalço, Reinaldo Teles respirou fundo, mas o telefone já tocava.
Do outro lado da linha, tremendo de medo, ouviu-se a voz do seu fiel amigo Jorge Gomes, ex-jornalista e ex-bate-chapas promovido à pressão como paga de favores no tempo da sua meteórica ascensão como dirigente desportivo, num ano da grande seca que rebentou com os stocks da «Super Bock».
- Revistaram a minha casa, Reinaldo.
- Também a minha foi revistada, Jorge. Estamos feitos.
- Tem calma, pá, o chefe tem muita força. É intocável.
- Mas nós não somos...
- Ouve lá, mas não estás filiado no partido?
- Estou, mas para que é que isso serve? Pá, vamos é ter calma, não te enerves, o general não nos vai deixar cair, com medo que a gente chibe. Levaram-me um cheque, Jorge. E aí, encontraram alguma coisa?
- Não sei, ainda não vi bem. Mas eu estava limpo. Quiseram apenas saber como é que eu levava um vida tão boa a ganhar apenas 90 contos por mês. Os gajos até sabiam que eu tinha dado um apartamento à minha amante...
- Tamos feitos!
- Calma, Reinaldo, agora sou eu que te digo para teres calma. Ainda não fomos dentro.
- E terá ido alguém?
- O Guímaro?! A esta hora já está preso...
- Mas desliga o telefone que já deve estar sob escuta. Vamos falar disto com o chefe, no clube.
Reinaldo bebeu um café que a mulher, Luísa, lhe serviu antes de sair de casa e mandou a filha comprar os jornais desportivos.
- Vamos matar o filho da puta que nos denunciou - atirou, entre dentes, e a salivar pelo canto esquerdo da boca.

Para recordar velhos tempos, fez um movimento de pernas, golpeou o ar com um gancho de esquerda e terminou com um directo aos queixos de coisa nenhuma. O peixinho vermelho do aquário boiava de barriga para o ar.
- Porra, quantas vezes tenho de dizer que não se pode dar comida a mais ao animal, minha besta! - berrou Reinaldo, entornando o café nas calças de linho, o que o levou a mais um movimento de pernas que a idade já não lhe consentiu, pois terminou estatelado no tapete de Arraiolos que tinha à entrada da casa de banho.
- Puta de vida - gemeu, com um bolbo já a crescer-lhe na canela.
A polícia tinha colocado em marcha uma operação de grande envergadura. O objectivo era claro: apanhar a rede de corruptores e corrompidos envolvidos no mundo da arbitragem portuguesa. A operação nascera há vários meses, após algumas denúncias. Os jornais desportivos tinham-se mesmo antecipado à investigação policial. E, no meio futebolístico, as histórias sucediam-se. A polícia não podia ignorar mais o que se passava nos bastidores da bola.

A organização tinha quatro anos de histórias de malandrice. A rede era já um polvo.
Do artesanato dos primeiros tempos, passara-se ao mais refinado profissionalismo. A empresa, altamente lucrativa, mas sem nome ou registo comercial, movimentava, por semana, milhares de contos. Isentos de tributação, o que ainda dava mais gozo...
Reinaldo era o operacional. O patrão era, obviamente, Pinto da Costa. E Jorge Gomes nunca se importava de sujar as mãos e de dar a cara. Os outros dois desconfiavam mesmo que seria capaz de se submeter a uma lobotomia por amor à causa (amigos do círculo mafioso garantiam mesmo que isso já tinha acontecido). Não era necessário mais ninguém nas operações especiais.
Era tudo muito claro: metade de cada aposta para eles, outra metade para os árbitros.
Os «patos» estavam sempre dispostos a entrar com muita massa, principalmente na recta final do campeonato. Quando as provas principais se iniciavam, o estado-maior decidia logo quem subia e quem descia, na certeza de que era nos escalões mais baixos que mais alto se ganhava.
Eis um bom exemplo do sucesso desta empresa sem nome: um clube da I Divisão investiu no final do campeonato, 50 mil contos para evitar a descida. O dinheiro foi entregue a Jorge Gomes.
Mas o clube desceu, pois por vezes a bola teimava em ser mesmo redonda. Ou, se calhar, foi o Jorge que se esqueceu dos pagamentos.
Quando a polícia começou a investigar, pensou que seria fácil apanhar os tubarões. Mas rapidamente percebeu que tinha de usar um isco de alta qualidade. Não chegava armadilhar um cheque. Aliás, essa tinha sido uma táctica que o advogado (Lourenço Pinto) do patrão tinha usado para fazer o seu show-off, apanhando assim um juiz de campo que estava mais que chamuscado. De um dia para o outro, com a polícia em campo, a música deixou de se ouvir, os pares imobilizaram-se no meio do salão e alguém gritou, quase em pânico: «Chamaram a polícia!». Desde esse dia, tudo mudou. Os árbitros fugiam como o Diabo da cruz de qualquer contacto, o volume de negócios caiu abruptamente e uma calma de morte instalou-se no mundo da bola. O gestor da conta de Jorge Gomes ousou até perguntar-lhe se estava a pensar mudar de banco, o que provocou no titular da segunda maior conta daquela agência uma reacção eléctrica:
- Homem, não me fale em bancos que me faz lembrar os tribunais...

A caminho de Lisboa, José Guímaro contava os marcos quilómetros. «Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, mais um quilómetro, um, dois...»
- Cala-te, pá, que ainda me fazes dormir! - gritou o agente Pires, que era quem conduzia o Fiat «Tipo».
- Deixa-o lá, pá, ao menos o gajo demonstra que sabe contar.
Guímaro ia responder com uma «contas é comigo», mas travou a tempo.
- Quero mijar - disse baixinho.
Os agentes não ouviram bem.
- O quê?
- Quero urinar - corrigiu, pensando que se tinha excedido.
O «Tipo» encostou à berma da estrada nacional, e Guímaro foi convidado a sair. Os dois agentes discutiam alguns pormenores da missão quando o voltaram a ouvir.
- Senhores, algemado não posso fazer chichi...
Mas teve de fazer.
- E faz tudo agora! - gritou o agente Pires.
- Mais cedo ou mais tarde, o gajo vai deitar tudo cá para fora - juntou o seu colega de profissão.
Mas Guímaro riu-se para dentro. O problema principal, afinal, era não poder fazer uma mijinha a tempo e em condições. O resto, ia resolver-se. «A propósito» - pensou -, que «será que o patrão já sabe o que me aconteceu?». Foi uma pergunta fatal. Depois dela Guímaro, perdeu a conta aos marcos quilométricos.
- Não te esqueças, temos de parar em Rio Maior para comprar um pão-de-ló - fez questão de avisar o Marques, acendendo mais um «suave».

O dia prometia ser longo e quente. O «Tipo» derrapou ligeiramente numa curva e desapareceu no lusco-fusco, preparando-se para ultrapassar um comboio de camiões. O castelo de Pombal continuava no seu sítio. O Marques nem por isso...
O patrão, o chefe, ele, já sabia. E já esperava. Melhor do que ninguém, ele sabia que aquilo um dia ia acontecer. Aliás, já tinha até avisado os adeptos do seu clube para as possíveis manobras das forças da ordem. Coisas de filmes, pensou, antes de passar à consulta dos recortes de jornais, devidamente destacados a amarelo por Jorge Gomes, mestre na confecção de coisas miúdas e autor de uma obra prima na restauração de um Fiat 600 que fora esmagado por uma «Berliet».
Pinto da Costa, ele, o chefe, pois, o patrão, o «boss», pediu à telefonista que lhe bloqueasse a linha. Precisava de reflectir. Com a gatinha de estimação no colo, sentou-se no sofá e perdeu-se nas suas recordações.
Há 20 anos...